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“Governei, mas menos do que tu!”

A eleição de um novo líder do PSD desencadeou um interessante debate. Digladiam-se os presidentes e ilustres militantes e deputados dos dois maiores partidos da região - e por sinal os únicos que governaram em quase 44 anos de democracia - sobre quem governa há mais tempo.

Ao argumento do PSD de que 24 anos é muito tempo, responde o PS dizendo que não são 24 anos, mas - pasme-se - 16 mais 8 (?!) e recordando que na Madeira o PSD governa há mais tempo. Sem comentar o ridículo exercício de matemática criativa utilizado por Francisco César para criar a ilusão de que há dois governos do PS (e supõe-se, portanto, dois PS) - um antes de César e outro depois de César, este inútil mas divertido debate merece algumas considerações.

Em primeiro lugar, demonstra um vazio de ideias para a Região por parte destes dois partidos, que centram a sua disputa na contagem do tempo de governação. Em vez de tentarem demonstrar em que é que diferem um do outro no seu projeto político para a Região, PS e PSD entretêm-se com a sua principal divergência, que parece ser o tempo de governação.

Em segundo lugar, é um sinal de que ambos governaram os Açores tempo demais, e pior, governaram (quase) sempre com musculadas maiorias absolutas, recorrendo aos mesmos métodos. A diferença prende-se essencialmente com as épocas em que o poder foi exercido.

Finalmente, e em bom rigor, este debate revela que nestes partidos de centro as diferenças resumem-se essencialmente aos protagonistas e à intensidade de algumas políticas. Se existissem diferenças de peso seriam essas a serem alvo de polémica e debate.

A questão do tempo revela por isso a necessidade que PS e PSD reconhecem de existir alternância e não de mudanças de fundo. O problema é que cada um quer a alternância no quintal do outro e não no seu: o PS quer alternância na Câmara Municipal de Ponta Delgada, o PSD no Governo Regional.

O que os Açores necessitam é de mudanças efetivas nas políticas, que conduzam a mudanças de fundo na nossa Região. Obviamente que o Partido Socialista teve mais do que tempo e espaço - todo o espaço que cinco maiorias absolutas e uma relativa lhe deram - para mudar o perfil da nossa economia e tornar os Açores numa região socialmente justa e com serviços públicos que respondam às necessidades das pessoas, recuperando as décadas de atraso dos Açores.

Pelo contrário, continuamos a ser uma região profundamente desigual, que se baseia nos baixos salários (quando são pagos, veja-se a continuada crise na PROVISE onde continuam os salários em atraso), na precariedade e em atividades de baixo valor acrescentado - o que serve a muita boa gente que deste estado de coisas se alimenta - e onde serviços públicos como a saúde, apesar dos avanços, continuam a deixar milhares de açorianos e açorianas desesperados pela espera.

As mudanças de fundo que os Açores necessitam passam por mudanças na economia, apostando fortemente no conhecimento e no aproveitamento dos nossos recursos, como o mar. Passa pela valorização e respeito por quem trabalha lutando sem tréguas contra a precariedade e os abusos laborais que subsistem. Passam por serviços públicos que respondam às necessidades das pessoas.