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A Administração Trump e o Air Center

Durante a semana passada, a ilha Terceira recebeu vastas delegações representativas de interesses governamentais e privados dos mais diversos países, oriundos de vários continentes. Apesar da grande azáfama, declarações de interesse e de intenções ambiciosas, não ficaram grandes certezas, mas conservaram-se as expetativas já criadas, agora, reforçadas para que os Açores e, especialmente a ilha Terceira, viessem a ser, mais do que alguma vez foram, o centro científico (e não só) do mundo no Atlântico.

Não ficámos com certezas, a não ser que, afinal, o PS/Açores enganou os terceirenses, durante a última campanha eleitoral, quando Sérgio Ávila, enquanto candidato, andou a «vender» o mega-projeto da instalação de um HUB logístico para a navegação comercial no porto da Praia da Vitória, um projeto contrariado, na semana passada, pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros que confirmou o investimento e a centralidade do porto de Sines, no contexto do alargamento do canal do Panamá.

À margem do mega-encontro internacional que recebemos, confirmou-se, mais uma vez, o que há muito tempo tem sido mais do que evidente: Devin Nunes – acérrimo defensor das políticas Trump – vincou que é inaceitável qualquer presença estrangeira na base das Lajes. O sentido de posse do congressista é notável, pois nesta declaração assume que os Açores são como uma qualquer região norte-americana. Mas não deixa de ter razão quando defende que a presença militar de qualquer potência estrangeira nos Açores é contrária aos nossos interesses.

Donald Trump não está muito inclinado para investir na ciência e nos setores tecnológicos mais avançados, e parece preferir voltar a investir em indústrias ultrapassadas e extremamente poluidoras. Aliás, têm surgido notícias que dão conta do reforço do investimento para a reabertura de minas de carvão nos EUA.

É neste contexto que a diplomacia portuguesa se move. Se por um lado, temos uma Administração norte-americana avessa ao progresso e investigação científica de ponta, por outro lado, temos um conjunto de países dispostos, e disponíveis, para levar a cabo investimentos avultados com potencial para alavancar a economia da Região e importar conhecimento para complementar e potenciar o saber acumulado que temos, no caso do mar e dos seus recursos, não só piscatórios, como também do seu subsolo, para abrir caminho para outras áreas científicas como a vulcanologia, sismologia, exploração espacial, climatologia, biologia e biotecnologia

O Air Center foi uma receita prescrita pelo antigo embaixador dos EUA em Portugal para atenuar os efeitos da redução de pessoal civil e atividade militar norte-americana na base das Lajes, perante um país e uma Região que teimam em não procurar, a partir da iniciativa e projetos próprios, alternativas económicas, naturalmente em rede com o conhecimento universal, que potenciem as nossas riquezas endógenas, numa quadro de coesão regional, através do desenvolvimento de projetos em diversas ilhas, o que faz sentido numa região como a nossa.

Não deixa de ser notório que para garantir que mais ninguém se aproxime, interfira ou ocupe o espaço ocupado pelos interesses militares norte-americanos na base das Lajes, a componente do lançamento de satélites de baixo custo, subitamente, deixe de fazer parte do Air Center para passar a ser, tal como foi anunciado pelo Ministro da Ciência, um projeto paralelo ao Air Center.

Entretanto, para a vasta maioria dos açorianos, e até mesmo terceirenses, todo este processo decorre sem um esclarecimento cabal e concreto dos seus resultados para o futuro da Região. Bem sei que envolver as pessoas nestes processos esta longe de ser fácil, mas essa não deve ser a razão para as deixar à margem.

Pensar que atirar, em anúncios públicos prontos a consumir, uns números avultados de investimento obriga à aceitação, inquestionável, de tudo o que se propõe fazer na Região, é uma atitude, no mínimo, paternalista.

Em Santa Maria, as pessoas reclamam por acesso a mais informação sobre o processo e informações subjacentes à instalação de uma estação de lançamento de satélites de baixo custo. Ora, tal atitude não pode, nem deve, ser vista por responsáveis políticos como uma forma de resistência, mas sim como o exercício do direito de participação.

Na Terceira, tais movimentos seriam bem-vindos, não só como um sinal de que as pessoas estão atentas e interessadas no futuro da sua terra, mas também como sinal da vontade em participar ativamente nas opções políticas que a todos nos afetam, e que se não mudarem de rumo, os terceirenses continuarão dependentes do grau de agressividade dos EUA para imporem a sua vontade ao mundo, e até da «boa consciência» dos norte-americanos para limparem o que sujaram, naquele que é um comportamento diplomático que o atual Ministro dos Negócios Estrangeiros preconiza para a relação diplomática com os EUA.