Share |

Ainda acabamos a mudar de povo...

De acordo com um estudo recente da Universidade dos Açores, se inquirirmos os/as cidadãos/ãs sobre os principais responsáveis pela astronómica abstenção, sucessivamente existente, em diversos actos eleitorais (no país, em geral e, nos Açores em particular), obtemos como resposta: primeiro, o Governo; depois, os/as deputados/as; e, finalmente, os partidos.

Se lhes pedirmos para se explicarem um bocadinho melhor, dizem que os partidos só pensam em si mesmos, que estão a perder credibilidade e que estão afastados das pessoas, pelo que são todos iguais.

Concluindo e resumindo, entende-se muito bem o recado: mudem de comportamento, desçam à terra do comum dos mortais, cumpram as promessas que fizeram e as expectativas que criaram, ponham os/as Açorianos/as em primeiro lugar (em vez de sucumbirem aos interesses partidários), defendam quem precisa de ser defendido e não quem tem dinheiro e poder para se defender, olhem as pessoas nos olhos e admitam o fracasso de várias iniciativas, digam com clareza ao que vêm e que tipo de interesses constam do respectivo caderno de encargos, atrevam-se a representar-nos (em vez de se representarem a si próprios), ouçam-nos, respeitem as nossas reivindicações e propostas, perguntem-nos (quando não têm a certeza) e, sobretudo, não nos tentem enganar, com demagogia, pão e circo…

Obviamente que esta, para além de ser uma interpretação pessoal, peca por incompleta mas, pela minha experiência, é bem capaz de não andar muito longe da realidade. E como, tanto quanto sei, não há nenhum estudo que nos diga, preto no branco, como analisam os/as protagonistas políticos/as as causas da astronómica abstenção, vou continuar a interpretar por conta e risco próprio.

Os principais protagonistas políticos andam muitíssimo preocupados (e fazem bem!), com os altos níveis da abstenção. Aliás, andam assim há anos, expressando esta preocupação de maneiras diversas, todavia, com uma característica comum: a responsabilidade é do povo, que não quer saber, que prefere ir para a praia ou para o centro comercial (em dia de eleições), que generaliza a crítica a tudo e todos (sem ter sensibilidade para as diferenças que existem), que não percebe a importância do acto eleitoral (porque é inculto e preguiçoso), que só se lembra de “Santa Bárbara, quando troveja”, que tem inveja das ‘mordomias’ dos políticos, que só pede e/ou exige…

Ou seja, estamos perante um verdadeiro diálogo de surdos, na medida em que, quem tem a obrigação de ouvir, perceber e respeitar (por isso, encomenda estudos académicos para aferir daquilo que o mais elementar bom senso já sabe), não ouve, não percebe e não respeita. Parece que o mais importante é que fique tudo na mesma e, se alguma coisa tem que mudar, então que mude o povo, isto é, os/as abstencionistas!

Vai daí, começam a inventar, fingindo que alguma coisa mudará: ele é benefícios fiscais para quem não se abstém (tipo, “vote e ganhe um cupão de descontos”), ele é a valorização de quem faz bonecos no boletim de voto (tipo, “desenhe e mande à vida a democracia”), ele é a obrigatoriedade do voto (tipo, “ou vota ou paga”)…

Afinal, não seria mais fácil, barato e tranquilo mudar de povo?!