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As árvores sem voz

Angra do Heroísmo, nos últimos anos, tem tido uma relação - digamos que - menos pacífica, com as suas árvores.

Para o anterior executivo camarário, também da responsabilidade política do PS, a melhor forma para manter a arborização do centro histórico e arredores foi o abate sistemático de árvores. Foi assim na Avenida Ten. Cor. José Agostinho, na Avenida Álvaro Martins Homem e em outras artérias da cidade.

A sombra proporcionada pelas árvores seria desnecessária - para quem se passeia de automóvel, além de que se evitaria sujá-lo com as folhas que teimam em cair – e o efeito depurador estaria garantido pelo pulmão do Monte Brasil.

Após algumas demonstrações de desagrado, lá a autarquia foi replantando árvores na Avenida Ten. Cor. José Agostinho e em outras paragens. Não sei se serão as espécies mais indicadas – vou acreditar que sim – e em alguns casos creio que foram criadas as condições para que se evitasse o levantamento da calçada. E vou também acreditar que os salgueiros, entretanto abatidos, junto ao muro do Relvão estavam podres.

Na última campanha autárquica, Álamo Meneses deu razão às críticas que o BE teceu acerca do abate sistemático, e na maior parte dos casos totalmente evitável, de árvores no centro da cidade.

Álamo Meneses fez refletir no programa eleitoral do PS à autarquia de Angra do Heroísmo, em 2013, essa preocupação, ao defender a operacionalização daquilo que designa como “…os modernos conceitos de infra-estrutura verde, com os seus corredores ecológicos, canais que permitem que a natureza penetre no coração das povoações.”

Pareceu-me ser uma coisa muito bonita, pelo menos a conjugação de palavras pomposas dava a entender que se preparava algo de majestoso. Mas pouco, ou nada se fez, para além das árvores já plantadas pelo anterior executivo para remediar o mal feito. Por sinal, bastará constatar que a Avenida Álvaro Martins Homem continua sem ter qualquer indício de vir a ter árvores, nem num futuro próximo, nem longínquo. Porventura, porque está longe de algum “corredor ecológico”, e vai daí ainda não foi, mas vamos acreditar com força que será, penetrada pela natureza por um canal qualquer que, em breve, surgirá.

O BE defende algo tão simples, mas menos pomposo, como a implementação de um plano de arborização para a cidade e concelho. Se foi uma decisão política que levou à plantação de árvores no centro de Angra do Heroísmo, e se foi também uma decisão política que as tirou de lá, então terá de ser também uma decisão política, com o devido apoio técnico, que trará uma nova gestão da arborização para a cidade e concelho. Ficar à espera que a natureza, por si só, resolva problemas políticos não pode servir de justificação para a falta de ação.

Dar voz às árvores, numa cidade e num concelho, é valorizar o ambiente e a saúde dos seus munícipes. Não é coisa pouca, apesar de parecer ser, e, por isso, merece que falemos disso.