Share |

A arte de bem deseducar: desabafo de um subordinado

As aulas deste ano letivo 2018/2019 recomeçaram há uns dias e, se há coisa que já percebi, é que este é um ritual fértil à arte de bem deseducar. Considerava uma pergunta de extrema importância a ser feita sobre o tema: estará a educação num caminho correto e profícuo? Ora, desengane-se aquele, que como eu se enganou, porque a pergunta que parece ecoar melhor nas quatro paredes dos decisores corresponde a uma e uma só: qual o próximo passo para acentuar a deseducação?

A educação em Portugal parece um quadro onde pinturas se sobrepõem, retoques são dados onde calha… Quando se vai a ver, a transfiguração e deformação é tanta, tanta, tanta, tanta, mas tanta que até a textura é intragável.

Não deixa de ser paradoxal e enigmático o facto de olharmos para o  pensamento próprio como o salvador da Humanidade, no entanto, na altura própria para o desenvolvermos, é obstaculizado. Poderão, e com toda a razão, argumentar que na nossa escola estão a ser dados os conhecimentos e mecanismos para tal construção que é autónoma. Não duvido. O mal está em tudo o que é dito, mas não praticado. «Faz o que eu digo e não faças o que eu faço» é expressão que não pode assentar em nenhuma instituição de ensino. Os valores fundamentais para uma sociedade melhor são constantemente cilindrados.

Onde está a liberdade, solidariedade e fraternidade de um sistema tão ortodoxo? Os que já se esqueceram de como era ser jovem vão discordar. Já passaram, às tantas já nem querem saber. E nem querem saber os próprios pais, não porque não se preocupam com os filhos e o seu futuro, mas porque também foram vítimas desta deturpação de valores. Como pode o sistema ser ortodoxo se existem tantos caminhos, modelos, programas, projetos diferentes nas nossas escolas? Muito simples: baseiam-se todos no mesmo – burocracia. A burocracia é um dos piores males que nos afetam: é ela quem monta a avaliação, é ela quem desvia a atenção do professor do aluno para as atas, é ela quem faz esbarrar pensadores livres numa parede com um buraco minúsculo – é a única via disponível.

Desvendemos o pior lado da burocracia: a avaliação. Um processo esgotante, entediante, injusto e desnecessário.

Tanto papel e recurso intelectual é movido por uma folha que testa a memória de um indivíduo. Para quê? Numa sociedade onde a informação está cada vez mais disponível (e vulnerável) não será mais adequado uma preocupação em orientar o alunos para a busca e tratamento da informação pretendida através de um processo consciente e racional na ambição pelo rigor? Chamem-me o que quiserem, mas um dos nossos principais obstáculos, enquanto sociedade, corresponde ao monstro da contra-informação, logo devemos estar preparados e estimular o rigor pela informação. Ela já existe, é impraticável um indivíduo retê-la na sua totalidade, logo a competência essencial é selecioná-la. Se este parágrafo foi excessivamente repetitivo é para demonstrar o meu desespero perante a impreparação para a adaptação tão necessária nestes novos tempos – o rigor. Resumindo: a missão não é avaliar conhecimentos, mas sim orientar a pesquisa  da informação.

Devemos memorizar sorridentes e contentes com a curiosidade de uma criança a informação que nos é ditada, porque no fim temos de preencher um papel com ela. Porque no fim temos de ter a melhor nota. Porque no fim temos de entrar para a melhor universidade. Porque no fim temos de ter o melhor emprego. Porque no fim temos de morrer felizes com o esgotamento que sempre acatámos. Somos jovens, a idade da honestidade, sinceridade, do dinamismo intelectual e de um desejo radical de conseguir sempre fazer melhor. Não é a restringir os nossos interesses e tempo que nos vão fazer estarmos felizes a aprender. Esta realidade assusta-me. Os jovens não estão felizes a aprender. Não estamos. Todos os progressos foram feitos pela aprendizagem, aplicação e reciclagem de ideias. Ao retirarmos a vontade de aprender de seres humanos o resultado só pode ser o suicídio societário. A estabilização. A decadência. Então, o que é aprender? É guardarmos em nós parte do espírito inocente da criança: a curiosidade. A curiosidade é caraterística nata de qualquer indivíduo. A escola tem é de a estimular. Quando é imposto um número sem fim de conteúdos – que são apresentados com fim único a avaliação e não o desenvolvimento pessoal – o processo deixa de ser pessoal e perde-se.

Não se baseia a nossa educação em conhecimentos? Ortodoxia. Esta via única tem de acabar.

Tenho a concretização prática desta ideia, a prova, sou eu. Sempre gostei de rochas, trazia-as de todo o lado. Adorava sonhar com o céu. Quando aprendi a ler um dos maiores prazeres que tinha era ler enciclopédias ilustradas sobre tudo, mas essencialmente sobre ciência e História cultural e natural. Conhecer para além da fronteira era o objetivo. Pode-se dizer que adorava (e gosto) de acumular conhecimento. O meu conhecimento. Meu. Quando veio a afunilação de tempo e concentração para aquilo que sentia não ser o mais produtivo, perdi o gosto por «aprender». Vocábulo que me impunham, mas que não corresponde à verdadeira aceção do termo. Tenho a confessar que dou por mim a olhar para o relógio, quase desesperadamente, nas aulas de física e química, biologia e geologia, matemática,… A mesma pessoa que venera Carl Sagan, que considera as rochas a sua extensão, que se apaixona pelo abstracionismo dos números. Porquê? Porque essas paixões agora são meramente sinónimo de um esgotamento para cumprir com objetivos que me são impostos. Duas semanas de interrupção letiva  e sinto-me igualmente cansado como aquando do seu início (que se note que foram praticamente só descanso). Portanto quem quer vencer este jogo para atingir o seu sonho tem de sofrer exaustão intelectual.

O dinamismo intelectual juvenil pode mudar o mundo, contudo é subterrado. É, depois de libertado, um pássaro ferido, moribundo, que já não voa.

Como conclusão pode-se afirmar que o protagonismo dos conhecimentos deve dar lugar às competências. Competência para ser, pensar e agir. Competência para ser cidadão, ser um ser humano. «Então, pronto, avaliam-se as competências», o mesmo erro. A avaliação não pode existir. Se olharmos bem uma perífrase de avaliação é «método aplicado por falta de confiança no aluno». Porquê prolongar esta desconfiança? A ideia de que se o aluno tem um pouco mais de liberdade a vai usar para preguiçar é ridícula, e fruto somente do desinteresse promovido pela falta de visão da educação tal como está. Quando os alunos estão interessados, maravilhas acontecem. Inclusive o radicalismo de pensar numa sociedade melhor. Sem nunca esquecer a imperfeição humana. Aliás, os lunáticos dos utópicos têm noção da imperfeição humana, ao contrário dos racionais; prova disso está nos construtores do nosso sistema educativo: procura a perfeição e transversalidade onde não existe.

Quando finalmente se debate sobre a educação incorre-se noutro erro: afirmar que a educação deve estar refém das necessidades do mercado de trabalho. Não, a educação está ao serviço do futuro da comunidade. A educação serve-nos, a todos. É por isso que é tão importante orientar alunos ao invés de os sufocar: porque assim terão oportunidade de mostrarem o seu potencial.

Duas competências essenciais correspondem ao ser cidadão e possuir espírito crítico. Ambas importantíssimas à sociedade. Todos gostamos da democracia, mas não a conhecemos. Todos gostamos de pensar pela nossa cabeça, mas perdemo-nos. Onde está a preocupação em integrar realmente os jovens na sociedade? Num inquérito feito a uma amostra de 85 alunos açorianos, 76,5% considera que é o Governo dos Açores aquele que tem mais poder, em detrimento da Assembleia Legislativa. Como se pode pensar que em democracia quem tem o poder corresponde a um pequeno grupo de pessoas em detrimento de uma assembleia? Algo vai mal. Sem lugar à instrospeção, os alunos não têm vontade nem meios para inferir a verdade de seja o que for. A nossa sociedade vai mal.

Temos de tomar um novo rumo, sem medo de uma mudança que implique uma tela branca. Parece ser necessário um apagão intelectual: uma demonstração de descontentamento através da obtenção deliberada de um zero nas avaliações. Se a violação pacífica de leis injustas é legítima, façamos uso do sistema para o enfraquecer. Talvez assim alguém nos ouvisse, quando todos nós fossemos considerados burros, e a comunidade educativa internacional se risse da nossa queda nas suas classificações tão importantes para os nossos decisores – conforme o vento.

Isto vai mal.