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As aventuras de Berardo e companhia

A elite económica e financeira assaltou o país. Escândalo atrás de escândalo, as suas trapaças e esquemas vêm ao de cima quando a conta dos seus desmandos é apresentada às pessoas. Esta elite atuou sempre com a benção dos governos que, ao longo dos anos, fomentaram, facilitaram, ignoraram os seus negócios, não raras vezes através da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Joe Berardo, com uma desarmante sinceridade, em frente aos deputados/as e em direto para todo o país, confessou os seus esquemas financeiros com os quais foi buscar milhões para financiar as suas aventuras no mundo do capitalismo financeiro. Aventuras com o dinheiro dos outros que agora, diz o “comendador”, não pode devolver por nada ter em seu nome, nem dívidas nem bens. Mas tem associações, fundações, empresas, obras de arte e uma garagem. Nada portanto.

O esquema de aquisição de ações com milhões emprestados, dando como garantia as próprias ações que Berardo utilizou, é quase dar como garantia uma mão de um jogo de poker. O mais certo é que seja uma mão cheia de nada, principalmente quando se protege o património com uma pirâmide de instituições de fachada. No entanto essa prática, ao que parece, era comum e as administrações da CGD aparentemente consideravam essas operações um bom negócio. ‘Gangsterismo’ com patrocínio do Estado.

Se em tempos a atividade de Berardo deu-lhe o direito a comendas, elogios, agora dá-lhe direito a comentários inflamados na comunicação social e nas redes sociais.

Mas Berardo é apenas mais um dos aventureiros financeiros dos nossos dias cujos assaltos vamos, pouco a pouco, conhecendo. Outras aventuras, como o desastre do BPN de Oliveira e Costa, Secretário de Estado de Cavaco Silva ou do Banif, banco do regime de Alberto João Jardim, atingiram os portugueses como bombas e fizeram-nos enterrar milhares de milhões no poço sem fundo da banca falida.

Não esquecendo, claro, o grande desastre do banco que tinha ministros de todos os regimes e que teve vinte e cinco Ministros e Secretários de Estado em governos de PS, PSD e CDS- o BES de Ricardo Salgado. Ainda hoje pagamos o desastre da sua resolução e sofremos as consequências de uma venda danosa do Novo Banco - o tal que tinha o cognome de “banco bom” - que, adivinha-se, dará sempre prejuízo até que termine o direito a receber mais dinheiro do Estado.

Dizer que existem portas giratórias entre o poder político e económico é um eufemismo. O poder económico e financeiro esteve sentado à mesa dos conselhos de ministros dos governos de PS, PSD/CDS e tomou muitas das decisões que o beneficiaram diretamente. A conta do inevitável desastre do ‘gangsterismo’ financeiro ainda nos está a chegar.

Durante o período da crise financeira a expressão “vivemos acima das nossas possibilidades” tornou-se o mantra repetido pelo poder económico que a direita agarrou para chegar ao poder em 2011. É cada vez mais claro que quem viveu acima das nossas possibilidades foi esse mesmo poder económico e financeiro.

Berardo faz parte desse poder e é mais um banqueiro sem escrúpulos que viveu acima das nossas possibilidades.