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Cegando e atirando terra contaminada

Escrevo novamente acerca da contaminação de aquíferos, solos e subsolos por hidrocarbonetos e chumbo, na Praia da Vitória. Uma situação que se arrasta há mais de uma década e que, devido aos poucos avanços, outras décadas serão contadas por gerações vindouras.

Se por um lado temos, sistematicamente, o mesmo discurso por parte do Sr. Presidente do Governo Regional após as reuniões da Comissão Bilateral Permanente, instituída no âmbito do Acordo de Cooperação e Defesa, por outro lado temos alguns episódios que demonstram a forma como a resolução deste passivo ambiental tem sido (des) tratada.

No passado mês de janeiro, veio a público a contaminação de cerrados ocorrida aquando dos trabalhos relacionados com a retirada parcial do pipeline do Cabrito, que ligava à Base das Lajes tanques localizados no interior da ilha Terceira...em 2016.

Pelo que parece, e embora o perigo eminente, estes locais não foram alvo de interdição. Pronto...só lá tem uma ou outra nascente de água e alguns poços de água que servem para consumo do gado...

Segundo o Governo Regional, a responsabilidade deste derrame não foi reconhecida pelo Comando Norte-Americano na Base das Lajes, apesar dos EUA terem indemnizado o proprietário do terreno, o que levou a que  Governo da República assumisse a limpeza,...até quando esta posição de submissão perante os erros dos EUA?

É aconselhável que este problema comece a ser encarado como um problema da região e não como de ilha e que as pessoas tenham a noção que, mais uma vez, o governo norte americano “fez e desfez, pôs e dispôs, como bem entendeu”, pois não cumpriu o que se encontra plasmado na Resolução n.º 129/2018 da Assembleia da Republica: "No quadro do respeito mútuo e do reforço das relações transatlânticas bilaterais, impute aos EUA as devidas responsabilidades económicas pela degradação ambiental e décadas de contaminação decorrente das ações militares norte-americanas na ilha Terceira e no arquipélago dos Açores".

Mais uma vez, o grupo parlamentar do BE, na Assembleia da República, mostrou a forma séria como encara este problema, colocando as questões pertinentes, às devidas entidades: a razão para que o Comando Norte Americano não tenha assumido a responsabilidade; serão imputados os custos financeiros e ambientais aos EUA? O calendário da descontaminação destes solos, em concreto; e o relatório final de 2019.

Não tenho dúvidas que este é um problema que preocupa os partidos – pelo menos aqueles que têm conhecimento deste crime ambiental -, mas sejamos sérios e sérias na forma e no lugar onde o abordamos e o questionamos. Adoptar uma postura de confronto acompanhada de um tom de voz estridente perante o ministro errado não resulta...

Já há muito tempo que nos andam a “cegar” e a atirar terra contaminada para os olhos.