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A Ciência e a nêspera

Nos últimos anos, muito se tem falado das ciências do mar. Contudo, pouco ou nada se tem feito para a sua concretização. Esta situação é particularmente gravosa para os Açores, que é responsável pela maior área de soberania marítima do país, a qual pode vir a aumentar, caso a ONU aprove a extensão da plataforma atlântica, elevando para cerca de 2,6 milhões de quilómetros quadrados a área do mar da nossa região. De facto, tendo em conta estas novas oportunidades, os últimos anos foram inclusivamente marcados por uma regressão, na disponibilidade dos instrumentos para o estudo do mar e das suas potencialidades, exactamente ao contrário do desejável e obrigatório, atento o facto de, a cada dia que passa, surgirem sinais do interesse das grandes empresas internacionais pela prospecção dos fundos marinhos do nosso mar.

Neste contexto, saudámos a aprovação de um Centro Público Internacional das Ciências do Mar, tendo ficado o Governo Regional mandatado para negociar com o Governo da República, no âmbito dos Projectos de Interesse Comum, o processo para a sua implantação, nos Açores (proposta do BE/A).

Era suposto que fosse assim mas, afinal, não é.

Já todos/as percebemos que o ‘centro’ ou o ‘observatório’, sedeado no Faial, é tudo uma mentira. E, se tivéssemos dúvidas, bastará recordarmos toda campanha eleitoral feita pelo Partido Socialista sobre este tema, durante as últimas eleições regionais, bem como a resposta do Governo Regional (poucos meses após as referidas eleições), ao chumbar a proposta do Bloco de Esquerda para operacionalizar este projecto, identificando as suas valências, recursos, estatuto, objectivos e prazos de concretização.

De facto, num mundo globalizado, os Açores só poderão ter um papel de destaque e ganhos económicos significativos se tiverem capacidade para ter centros de investigação, inovação e ciência próprios. Caso contrário, não passarão de meros espectadores das diferentes mais-valias extraídas do laboratório natural que eles são.

Esta falta de projecto, de ambição, de ideia de futuro é, hoje, plasmada, nessa nuvem difusa que é o chamado AIR Center. É confrangedor ouvir o Senhor Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia perorar sobre este projecto, quando não é capaz de dizer o que é que os Açores pretendem dele, como é que se concretiza, quais as valências concretas que aqui ficarão, nem sequer quando se concretizará.

Quer nós queiramos, quer não, esta falta de projecto para o futuro dos Açores resume-se, neste momento, não a ‘cartas de conforto’, mas a cartas de despedimento endereçadas a parte significativa da ‘inteligência’ dos Açores. Bem pode o Governo Regional atirar as culpas para a Universidade e esta devolvê-las ao Governo Regional, o qual, em desespero de causa e para atamancar, declara-se disposto a colaborar, no sentido de manter os postos de trabalho dos/as investigadores despedidos.

Nem um Observatório no Faial, por um lado, nem um Air Center, na Terceira, por outro, têm qualquer tipo de suporte concreto, estratégico e, menos ainda, científico, para os Açores e para o seu desenvolvimento futuro.

É esta a política do Governo Regional: esperar sentado, que as coisas aconteçam.

Parece a história da Nêspera. Eu vou contá-la:

- Uma nêspera que estava, na cama, deitada, muito calada, a ver o que acontecia. Chegou a velha e disse: - Olha uma nêspera! E – zás – comeu-a!

É o que acontece às nêsperas deitadas, caladas, a esperar o que lhes acontece…