Share |

A crise. Qual crise?

A crise ecológica da terra foi nos últimos tempos o tema mais proferido por todos nós, após a crise financeira de 2008. Uma crise que deixou marcas na economia portuguesa, fazendo a dívida pública crescer como nunca antes visto. Os contribuintes foram todos chamados a financiar o sistema bancário português.

Sobre a crise ecológica, discutíamos os fenómenos que afetavam a mudança climática. Os profissionais da matéria defendem que as alterações climáticas estão a ocorrer de forma muito mais rápida do que aquilo que estava previsto. A derradeira subida da temperatura, a acumulação de CO2, o derreter do gelo polar, as inúmeras inundações e as secas por todo o planeta estão a acontecer muito rapidamente e não temos dados para quando poderão terminar, ou pelo menos abrandar.

Neste momento, discute-se de quem será a culpa por estes acontecimentos, realizam-se congressos, fóruns, esclarecimentos sobre o assunto e dá-se formação sobre sustentabilidade ambiental. Nestes eventos surgem várias opiniões, como as dos cientistas que atribuem esta crise à atividade humana, mas por outro lado também existe quem atribua esta crise ecológica ao sistema capitalista. Na minha opinião é impossível dissociar uma coisa da outra porque o sistema capitalista produz bens para serem consumidos pelos humanos.

Mas o ponto mais crucial deste debate recai sobre quem produz, e isto é, a forma irracional como o sistema capitalista procura a expansão e a acumulação de riqueza pela procura do lucro a todo o custo.

Sendo assim, pode atribuir-se a responsabilidade por esta situação à irresponsabilidade humana, que pode deixar-nos à beira do abismo. Como John Bellamy Foster salientou, “a crise ecológica planetária está cada vez mais englobada, um produto da incontrolabilidade destrutiva de uma rápida globalização de economia capitalista, que não conhece outra lei se não a sua própria orientação para a expansão exponencial”.

Em pleno Século XXI, grande parte da sociedade já compreende a necessidade de substituir a micro-racionalidade da obtenção do lucro por uma macro-racionalidade social e ecológica. Para isso ser possível terá que existir um grande investimento em tecnologias que procurem substituir as fontes de energia fósseis - responsáveis pelo aquecimento global – pelas chamadas energias “limpas” e renováveis, tais como a energia eólica ou energia solar.

No entanto, de um dia para o outro, foi como se tivesse caído um meteorito na cabeça da população mundial, com a propagação do novo coronavírus. De repente, a preocupação com todas as outras crises foi esquecida ou adiada para o futuro. Esta epidemia, que teve início na China, contabiliza já mais de vinte mil mortos e atingiu mais de cento e cinquenta países.

As consequências económicas podem vir a ser piores do que as da crise de 2008. Ainda não se sabe o que esperar da economia mundial. Podemos dizer que se entrou num caminho sem fim à vista, que poderá levar meses para se iniciar a retoma da economia mundial. Será sem dúvida um golpe enorme, que poderá potenciar uma destruição no tecido económico, nas cadeias de produção e principalmente no setor de serviços (companhias aéreas). Os estados têm de ser chamados para intervir na economia para que seja possível impedir os despedimentos massivos.

Esta grande crise atual poderá até ser comparada com o Grande Crash de outubro de 1929, quando num período de apenas dez dias, após as ações em bolsa terem atingido patamares permanentemente altos, surge o maior colapso da bolsa de valores. Como este fenómeno do novo coronavírus levou à interrupção da produção, a bolsa abrandou. O medo da deflação poderá vir a influenciar as opções dos decisores políticos. Termino fazendo uma pergunta, será que os anos de 1930 poderão repetir-se?