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A democracia está em perigo?

Sim, é publicidade mas, em meu favor, tenho o facto de não ser enganosa: a Associação de Seniores de São Miguel (ASSM) vai organizar uma Mesa Redonda, exactamente sob o lema deste pequeno escrito, na próxima quarta-feira, dia 11, pelas 17.30, no Salão Nobre do Teatro Micaelense. Por gentileza da organização, foi-me dado o prazer de participar, neste debate, como comentadora (entre outros convidados e conferencistas).

Desde logo, felicito a ASSM pela breve explicação proposta para a escolha deste tema, a saber: “Almejando uma sociedade mais educadora e informada, a ASSM acredita que se exige, a cada um de nós, de forma individual e colectiva, o envolvimento em todos os domínios da vida, com vista a trabalharmos para uma democracia que urge ser mais robusta”. Assim é, de facto. E, sem querer antecipar análises ou conclusões desta Mesa Redonda, permito-me sublinhar uma evidência – a democracia (na sua forma e conteúdo) está enfraquecida, desacreditada, débil e, também por isso, com uma perigosa incapacidade de atracção, em favor de alternativas bestialmente ditatoriais e até mesmo profundamente insanas.

O caldinho de (in)cultura que nos trouxe até aqui, tem sido servido em doses, aparentemente, suaves, porém, implacáveis e – elas, sim – robustas. Se prestarmos atenção à voz do ‘senso comum’ (não confundir com ‘bom senso’), percebemos que um dos ingredientes mais intensos desta sopa é um profundo ressentimento de uma maioria, pela impunidade e privilégio de alguns - mesmo que esta ‘impunidade’ e ‘privilégio’ tenham (muitas vezes) realidade a menos e percepções a mais.

Mesmo assim, não ajuda nada à necessária e urgente mudança de dieta – que é como quem diz de ‘sopa’ – o facto de mais de três centenas de ex-políticos continuarem a receber subvenções vitalícias, ou seja, uma sobremesa bem doce, como uma espécie de recompensa pelo facto de terem ‘aturado’ o povo, entre 1985 e 2005.

E ajuda ainda menos percebermos como alguns partidos tentaram branquear esta situação, escondendo a lista de ‘recompensados/as’, a pretexto do novo regulamento da Protecção de Dados e do direito à privacidade. Até porque os pobres não têm este direito, uma vez que não lhes chega serem pobres: têm que escancarar as suas vidas e contas bancárias (se as tiverem…) para que o estatuto de pobreza lhes seja reconhecido.

E é, definitivamente, tornar a sopa intragável, por excesso de sal, sabermos que o Tribunal Constitucional, no fim de uma história rocambolesca de subvenções vitalícias para cá e para lá, considerou, doutamente, que os cortes parciais a que todos/as fomos sujeitos/as (durante os anos troikianos/passistas/paulistas) eram constitucionais para trabalhadores e pensionistas mas inconstitucionais(?) para as abençoadas subvenções.

Sim, é verdade que há muita má percepção, generosamente alimentada pela demagogia e populismo. Mas tal não é o caso da continuidade das subvenções vitalícias. Um privilégio absurdo é um privilégio absurdo é um privilégio absurdo e, comprovadamente, a democracia dá-se mal com eles…

É que, se queremos mudar de caldinho, temos de acabar com os privilégios que a ninguém convencem e que ninguém consegue justificar.