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Diz que tem um TMB "à cabeça"

É verdade que cada um/a põe ‘à cabeça’ aquilo que muito bem entende e ninguém tem nada a ver com isso! Mas há limites de decoro, de decência, de racionalidade e até de custos, relativamente a esta escolha. E quando a opção tem uma origem exclusivamente política, convém acrescentar a estes quesitos mais dois imprescindíveis: transparência e fundamentação, acima de qualquer suspeita. Até porque o tempo dos capitães-donatários – nesta ilha, como em todas as outras da nossa Região - acabou há muito e a última coisa de que a democracia e a boa governança precisam é da reencarnação desta figura toda-poderosa e impune.

Se partirmos destas premissas – e eu parto! -, então:

- é incompreensível que a AMISM, apesar de anunciar que terá financiamento para a instalação de um TMB ‘à cabeça’ da incineradora, não pretenda sequer redimensionar a mesma, ignorando a inevitável redução da quantidade de resíduos que para ela serão enviados;

- é inaceitável que, apesar deste facto, apesar de todos os alertas e riscos já apontados, apesar de todos os argumentos e apelos para que este processo seja travado, o presidente da AMISM - qual Capitão-Donatário! -, leve a sua decisão avante, mesmo que para isso tenha que se contradizer publicamente, vezes sem conta;

- é legítimo perguntar porque razão, nada, nem ninguém, consegue demover a AMISM e o seu presidente, da intenção de levar por diante este projeto;

- é obrigatório continuar a dizer – bem alto! – que a decisão anunciada de adjudicar a construção de uma incineradora em São Miguel é um grave erro, na medida em que terá consequências muito negativas para a saúde pública e para o ambiente, para além do seu gigantesco custo económico, imediato e futuro;

- e é urgente alertar todos/as para o facto deste ser um projecto megalómano e insustentável, com pesados custos para os/as contribuintes.

A sério: - se pararmos um minuto para pensarmos em todos os episódios deste processo, ao longo dos últimos anos, ficamos boquiabertos/as com tanta e tamanha incoerência, ilusionismo, cumplicidades e desfaçatez, numa história muito mal contada…

E, no entanto, as comemorações dos 43 anos do 25 de Abril estão aqui tão perto! E o nosso povo a (re)afirmar que é quem mais ordena! E as novas gerações a ouvirem-nos dizer, repetidamente, que a liberdade foi conquistada com sangue, suor e lágrimas, razões de sobra para que seja defendida e exercida! E a intervenção cívica, o exercício da cidadania, a democracia participativa - e todas aquelas coisas bonitas que dizemos, em discursos e colóquios – à nossa espera! E os/as mais jovens a observarem-nos, pelo canto do olho, a verem se, afinal, fizemos o 25 de Abril e ficámos tão cansados/as que, agora, não somos capazes de fazer mais nada!

Também por tudo isto, lembremo-nos que amanhã, sexta-feira, o Movimento Cívico “Salvar a Ilha” está a organizar uma Concentração Popular, entre as 16h e as 20h, nas Portas da Cidade, em Ponta Delgada, como forma de protesto à decisão da AMISM, o qual terá o seu ponto mais alto, por volta das 18h, com diversas intervenções públicas e performances.
Valerá a pena? Ainda iremos a tempo de travar esta loucura? Pois, sinceramente, não sei! O que eu sei é que se não tentarmos, se não fizermos ouvir as nossas vozes, se não dissermos ‘presente’ a uma tomada de (o)posição clara e sem tibiezas, se ficarmos em casa, consolados/as, com a estafada conversa do ‘são sempre os mesmos’…bem podemos organizar comemorações e cantar a ‘Grândola’…poucos/as levarão a sério a nossa convicção de que Abril se cumpre todos os anos, todos os meses, todos os dias!