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Dois desafios para a Autonomia

Celebrou-se na passada segunda-feira o dia da Região Autónoma dos Açores. As circunstâncias atuais tornaram a celebração deste ano especial, quer pela forma inédita, quer pelos desafios que se colocam, que, não sendo totalmente novos, se intensificam.

 

A luta pela autonomia sofreu avanços e recuos. Submersa pela ditadura salazarista, foi a democracia saída da revolução de abril que abriu portas a que os Açores conquistassem uma avançada autonomia. 

Este marco trouxe uma mudança profunda na forma de governo destas nove ilhas e permitiu enormes avanços no desenvolvimento dos Açores, avanços que poderiam e deveriam ter ido muito mais além, não fossem opções erradas e as próprias características do exercício do poder na região.

O primeiro desafio que se coloca à Autonomia é, por isso, o reforço interno do fator que a fez nascer: a própria democracia. Longas maiorias absolutas que se traduzem num domínio sufocante dos Governos Regionais, foram e são marcas do nosso sistema político. Na verdade, é por isso que o primeiro desafio que se coloca é o reforço de uma democracia com ampla e livre participação, assim como o reequilíbrio da interdependência de poderes na região.

O segundo desafio dificilmente será vencido sem que o primeiro veja avanços significativos. Trata-se da alteração do nosso paradigma económico. Os açorianos e açorianas, durante séculos, foram vítimas da exploração de modelos económicos concentradores de riqueza numa elite que desenvolveu sucessivas monoculturas com resultados desastrosos para a vasta maioria da população. 

Hoje, apesar de tudo, as elites continuam a exigir mão-de-obra barata e precária para alimentar as atividades de baixo valor acrescentado de que se alimentam, sem que a vasta maioria da população veja qualquer benefício.

Em épocas de crise, como a atual, essa desigualdade tende a aumentar e torna-se um peso insuportável na vida das pessoas, perdurando, por vezes, por gerações, e o próprio desenvolvimento social e económico da região é manietado. Assim, a elite económica e política que dele depende alimenta-se e persiste.

Estes desafios não são novos mas o tempo aumenta a urgência de os vencer. E só não foram vencidos porque, se para a maioria dos açorianos e açorianas, eles são um fardo que os oprime. Para a elite económica e política, que domina em longos ciclos, esses fardos são o alimento do seu poder.

É tempo de mudar esse fado e vencer os dois desafios: aprofundar a democracia e ganhar o desafio do desenvolvimento económico e social.