Share |

"Em luta contra os nossos direitos!" A piada de mau gosto da JSD

 

Começo por dizer que neste último fim-de-semana, a programação televisiva, e não só, oferecia outras opções, para além do congresso do PSD. Contudo, devo confessar que, de vez em quando, lá espreitava, na internet, as notícias sobre o tão badalado congresso e qual não foi o meu espanto, quando me deparei com o grande slogan da moção L da Juventude Social Democrata (JSD), ‘Estamos em luta! Contra os direitos adquiridos’! Mas, afinal o que pretende a JSD transmitir com tal slogan? Será que querem, por exemplo, acabar com um valor mínimo obrigatório para o salário (salário mínimo) à semelhança do que é defendido pela Juventude Popular? Será que querem acabar com o limite máximo de horas de trabalho semanal? Será que não querem que o(a)s cidadã(s)os tenham direito ao trabalho? 

Fiquei curioso e vai daí, consultei o conteúdo da moção, pois se calhar tudo não passaria de um exercício irónico para cativar a atenção dos mais incautos.

O documento começa logo com uma citação de Eugénio de Andrade, que é uma das únicas verdades que encontrei em tão involucionária moção (a JSD não gostaria, de certeza, que eu empregasse o termo revolucionário), “A juventude não precisa de piedade, mas de verdade”.

Para que não sobrem dúvidas, a governação do PSD e do CDS/PP não tem piedade dos jovens, nem dos menos jovens, já que isso da ‘piedade’ deve ser uma pieguice. Mas então, e a ‘verdade’? Vamos lá ver, se encontramos a tal ‘verdade’. 

A moção tem mérito ao apontar algumas verdades, mas cai em descrédito, quando confrontada com a prática, à boa maneira populista. Ora, às «páginas tantas» é proposta a lógica da necessidade de capacitar o(a)s cidadã(s)os e de orientar a atividade política para as suas necessidades e exigências. Então, para os responsáveis por esta moção, a melhor forma de levar a cabo essa pretensão é facilitar os despedimentos, aumentar o número de horas de trabalho gratuito e aumentar a precariedade.

Segundo a JSD, o(a)s cidadã(s)os querem ser facilmente dispensáveis, trabalhar mais tempo sem receber nada em troca e dispensam qualquer estabilidade laboral. 

A moção da JSD divide para conquistar. Incita o conflito entre pais/mães e filho(a)s, coloca empregado(a)s contra desempregado(a)s e tem a subtileza de reforçar a desconfiança que os portuguese(a)s têm acerca do que é de todo(a)s, o próprio Estado.

Refere-se à geração anterior como uma geração de culpados, quando deveria culpar os sucessivos governos do PSD, CDS/PP e PS e denuncia o peso insustentável de projetos faraónicos como se o PSD nunca tivesse sido responsável por nenhum.

A JSD aponta a necessidade de se estabelecerem tetos máximos às pensões e limitar a acumulação de pensões milionárias com o desempenho de funções com rendimentos avultados, mas esquecem-se de Eduardo Catroga que acumula uma pensão de €9.600 com o rendimento de €45.000 mensais por ocupar o cargo de Presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP. Por outro lado, nunca referem a urgência em aumentar, significativamente, as pensões de miséria.

A moção utiliza com extrema leviandade o conceito de sustentabilidade para colocar pais/mães contra filho(a)s, omitindo que a sustentabilidade alcança-se com a melhor distribuição da riqueza e faz de conta que o Estado Social é algo que surge por geração espontânea e não pelo contributo dos cidadãos através dos impostos que pagam. Quebrar a solidariedade intergeracional e a progressividade do sistema é enterrar o Estado Social.

Clamam pela sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, se calhar à moda da Manuela Ferreira Leite, em que os cidadãos terão sempre direito à saúde, se pagarem. Como se não tivessem pago por esse direito durante toda a sua vida contributiva.

A JSD brinca com a relação entre Estado e cidadão, como se fossem antagonistas de uma mesma história, ao ponto de proporem a emissão de faturas detalhadas, em que estejam discriminados os valores suportados pelo Estado e pelo cidadão. Até parece que o Estado não é constituído por todos. Pois, não deve ser, da forma como alguns fogem, constantemente, dos seus deveres fiscais e contributivos. Mas, mais grave ainda, transformam cidadã(s)os em clientes, seguindo uma lógica mercantilista de cidadania, em que os direitos são dessa forma, verdadeiramente, adquiridos consoante a carteira do cliente. No fundo, no fundo, a JSD defende um modelo de cidadania, em que os direitos não são conquistados, mas antes adquiridos a preço de ouro.

Muito falam do rigor na gestão dos dinheiros públicos, mas esquecem-se das constantes derrapagens orçamentais, agravadas nos Açores pelo limite estipulado na adaptação do Código dos Contratos Públicos à Região, pelo que é, no mínimo, incoerente que o PSD, juntamente com o seu líder regional da JSD, tenha votado contra, por duas vezes, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, a proposta de alteração do BE para que se procedesse à redução, significativa, do limite do que são entendidos por trabalhos a mais.

Convém, ainda, não esquecer que quem introduziu o modelo ruinoso das parcerias público-privadas foi o PSD, modelo que foi também reproduzido até à exaustão pelo PS.

Em suma, bem espremida a moção da JSD, chegamos à conclusão que ‘falam, falam, mas não dizem nada’, num emaranhado de ideias populistas e demagógicas que desembocam num autêntico exercício de hipocrisia e cinismo.