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Arquitectura LIX

Aqui junto ao porto e próximo do Clube Naval, no início da Marginal, fica o Peter´s Bar, o Café Sport com o melhor gin do Atlântico Norte.

Como António Tabucchi referia, é um misto de taberna e café, ponto de encontro obrigatório de todos quantos por aqui passam, pelo Faial.

Daqui não se avista a Marina, porque o Forte se lhe interpôs.

Mas pouco importa, que o gin está fresco e o calor é muito.

Ao terceiro, já se começa a descortinar a Marina.

Será que o tempo limpou?

Vê-se agora perfeitamente.

Fica ali no centro da Cidade, mesmo por baixo do Largo do Infante.

É pequena, como a Cidade, à sua escala.

Um equipamento urbano de apoio à navegação de recreio.

Com dois edifícios. O da entrada de charuto amarelo ao alto, a mostrar-se; o outro a agarrar o molhe e a Marginal, carrega a Rosa dos Ventos:

- Cada um com sua função,

Como consta da sinalização.

Será que já faço versos?...

O arruamento e os passeios ligando o conjunto, em calçada com desenho, de pedras grandes e pequenas, pretas e brancas, em faixas bordejadas de betão para pintar e sentar.

Ah! Aqui os navegantes que passam têm que deixar uma pintura, um nome, uma data, para que a fortuna não os abandone.

Viro-me na cadeira, e a Cidade também.

Já se vai virando ao Pico e ao Mar. Porque estava de costas.

E o tempo fecha ainda mais, e já não me deixa ver.

Será do fumo? Outro gin de faz favor...”

Horta Julho de 1987

 

Um ano depois da inauguração da Marina da Horta escrevia este texto, muito possivelmente para qualquer publicação, e que hoje transmite aquela calma e poesia de que sempre, naquele tempo, o projecto se revestia, porque gostávamos de fazer bem, havia vontade de que fizéssemos bem, e as pressas não existiam, mas sim prazos adequados , o que nos permitia pensar.

Coube-me então a sorte de ficar encarregue do projecto da Marina que sucedia a um outro, que fora posto de lado por não respeitar a escala da cidade, e que por isso mesmo, e bem, fora objeto de grande contestação, e posto de lado.

Trinta anos passados, as recentes sucessivas atribulações de que vem sendo alvo o Porto da Horta, nele se incluindo todo o conjunto de infraestruturas marítimas que preenchem a sua baía, conduzem a nova e consequente contestação.

Desde logo, talvez uma década depois, a ampliação da Marina que a crescente procura impunha, já correspondeu a uma nova época, em que os projectos, numa incultura crescente, se começaram a fazer por um ajuntamento de técnicos, que não falam entre si, liderados por alguém de fracas ideias que ainda por cima não as expõe a discussão, onde cada um, na mira da faturação, sem pensar, arreia o que pode em tempo muito escasso.

Depois daquela ampliação e neste andar, que não apresenta até hoje quaisquer melhoras, ensaiando estudos diversos, mantendo o Clube Naval estrangulado, esquecendo a Cidade, mas aproveitando para polvilhar o terrapleno vizinho do Peter’s Bar com barracas de comerciantes vários, que como o clube mereciam melhor sorte, chegámos à necessária implantação de um porto destinado ao acolhimento de navios de cruzeiro e dos navios de transporte de passageiros entre ilhas, que pela sua necessária dimensão se colocou a norte da Marina e do “Porto Velho”, ali a sul da Ribeira da Conceição, articulando-se com a Cidade através da rotunda que fecha a Marginal.

Quis o modelo reduzido de ensaio em laboratório, a que o projecto então foi sujeito, advertir para a agitação que a infraestrutura iria introduzir no “Porto Velho”.

Simultaneamente, razões de custo, levaram a “embaratecer” a obra recolhendo o molhe mais para terra sem que se pensasse nos reflexos da desconsideração do ensaio e da transladação operada, já não ensaiada em modelo reduzido, porque o que importava era a obra em curso, desse o que desse, e não outros envolvimentos.

O ensaio não mentia, e a agitação outrora inexistente passou a sentir-se, recomendando um olhar atento, o emendar da mão, sob pena de manutenção dos danos nas embarcações, nos passadiços e na credibilidade da própria marina, a mais requisitada dos Açores.

O primeiro olhar, na emenda da mão, que pretendia suprir a agitação no saco do “Porto Velho”, por não satisfazer o requerido,sofreu de imediato a contestação, que não obstante não impediria a adjudicação da sua construção.

E a este seguiu-se um segundo, nas mesmas condições.

E ao segundo um terceiro recentemente apresentado, que diminui a agitação no saco, mas que a leva desta feita para a marina norte, que estava desde sempre tão sossegada, e não merecia!

Muito dificilmente reabilitaremos, na Horta ou noutro sítio qualquer, os danos que as decisões casuísticas, sem estudo, “chutadas com o pé que está mais à mão”, sistematicamente impõem ao território, e que nem tão pouco se demonstram económicas, porque aí as derrapagens e o rol de «correcções», por si só, encarregam-se de as desdizer.

Até quando?

Que necessidade temos da destruição do ambiente com que nos identificamos, como se fora essa a única maneira de que somos capazes de o transformar?