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Um erro na Terceira que vai sair bem caro a S. Miguel e a todos nós!

A incineração está a funcionar na Terceira.

Dir-se-ia que com a construção da incineradora todos os problemas dos resíduos se resolveriam na ilha Terceira nos próximos 30 anos, ao fim dos quais se considera pago o investimento realizado.

Dir-se-ia que o funcionamento da incineradora iria trazer para os residentes na ilha Terceira a solução para o tratamento dos resíduos que produzem.

Mas não. O que se passa é que a incineradora (e reparem como agora se usa o termo correto, incinerar e não “valorização energética”) está sobredimensionada para os resíduos que se produzem na Terceira. E sobretudo porque recebe resíduos orgânicos que, por serem muito ricos em água, têm um poder calorífico reduzido e, portanto, sem interesse para a produção energética.

Já se sabia que havia, da parte dos defensores da incineração, dificuldade em justificar um investimento num processo de incineração quando se confrontava essa solução com a alternativa mais barata e segura. A utilização do Tratamento Mecanico Biológico, aumentando a reciclagem e aproveitando a grande fatia de resíduos biodegradáveis, dos resíduos recolhidos  pelas autarquias, para produzir composto.

A Quercus apresentou as razões e explicou como fazia sentido essa solução. Primeiro, garantia-se a meta de 50% de resíduos reciclados em 2020, já que o Tratamento Mecanico Biológico permite a separação de muitos resíduos indiferenciados (aqueles que não separamos em casa, nos restaurantes, etc) quando chegam ao aterro. Segundo, evitar-se-ia a libertação para o ar de substâncias perigosas que precisam de ser filtradas, evitar-se-ia a construção de um aterro especial para receber substâncias perigosas,  evitar-se-ia a produção de águas residuais contaminadas que precisam de tratamento. Finalmente, em terceiro lugar,  parte do composto produzido, poderia ser utilizado na agricultura, e, pasme-se, também se gerava energia! Tudo a um preço “low-cost”.

Há ainda uma razão que tornava a solução apresentada pela Quercus a escolha certa. É que a solução do Tratamento Mecânico Biológico é modular, pode ser construída passo a passo, de acordo com as necessidades. Que quer isto dizer? Que, numa primeira etapa, fazendo uma avaliação das necessidades, se podia construir um primeiro módulo de Tratamento Mecânico Biológico adaptado à quantidade de resíduos produzidos e, mais tarde, aumentar, ou não, a dimensão desse módulo, adaptando-se, assim, ao longo dos 30 anos, às necessidades de tratamento.

O que se passa com uma incineradora é precisamente o contrário. Ela precisa de dimensão para trabalhar e para ser rendível. Ela precisa de dimensão para que os cálculos permitam que a União Europeia a considere uma “central de valorização energética”, um cálculo que tem a ver com a eficiência energética. O resultado está à vista:

- Nos próximos 10 anos vão, segundo dizem os responsáveis, esvaziar bolsas de resíduos, utilizando, dessa forma, os resíduos já depositados e não os que são produzidos atualmente, porque a Terceira e os Açores não produzem resíduos suficientes.

- Já há, aparentemente, uma zanga com a EDA, porque os responsáveis pela incineração querem forçar a venda da energia produzida pela incineradora, que, sobretudo durante o periodo da noite, não é necessária. É claro que a EDA não a quer receber, nem pintada!

- Pretendem construir uma central de elevação de água (central hídrica reversível), para equilibrar as “contas” da incineradora, sem a certeza de trazer vantagens económicas para a população. Faz-se o “greenwashing”, vendendo a energia por verde quando ela resulta da “queima do lixo”, para esconder o “desiquilíbrio” nas contas da incineração.

É caso para suspeitar que, mais tarde ou mais cedo, quem vai pagar por tudo isto são os mesmos do costume.

Mas, em S. Miguel, se a inteligência despertar, não irão cometer o mesmo erro! Espera-se que os autarcas olhem com “olhos de ver” para as declarações públicas dos atuais responsáveis pela incineração na Terceira e percebam no buraco financeiro em que se irão meter. E com graves consequências sociais e ambientais!