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"Literalmente" indecente

Há quase dois anos atrás (15 de Outubro de 2017), a vida concedeu-me, sem que eu lhe pedisse, a possibilidade de assistir, a partir dos Açores, a um dos dois maiores fogos de sempre, em Portugal. Aconteceu (acontecia), em Côja, concelho de Arganil, em plena Serra do Açor.  Ainda que eu estivesse na cidade da Horta - em plena semana de Plenário Parlamentar -, as descrições (entrecortadas por permanentes falhas de comunicação), feitas pela Bárbara (uma das minhas filhas) do que estava a acontecer, no Vale do seu coração, não me saíram da memória, até hoje (alguma vez?!).

A partir da ilha do Faial, a mais de 2000 quilómetros de distância, vi as chamas terríficas, senti o fumo sufocante, cheirei o fogo abrasador, despedi-me da cazinha construída com o trabalho e suor de muitos/as poucos/as e chorei pelo medo (tantíssimo medo!) do que poderia acontecer. Hoje, em jeito de balanço, posso dizer que, mais do que as muitas casas ardidas, as culturas destroçadas, as memórias para sempre perdidas, a partida de tanta gente que amava aquele Vale, o que mais dói (porque dói mesmo, “literalmente”) é olhar aquele recanto - outrora pleno de vida natural, pujante e arrebatadora – e perceber que nunca, nunca mais, voltará a ser o Vale do nosso encantamento.

É por tudo isto, ou também por tudo isto, que eu sinto um vómito – “literalmente” falando -, profundo e sonoro, quando assisto (mais uma vez, a partir dos Açores) à saga das golas inflamáveis (que, afinal não são inflamáveis mas que perfuram, quando sujeitas a fogo), à trapalhada de um kit que era suposto ser “de autoprotecção contra os incêndios” e acabou por ser “pedagógico para as populações que fogem do fogo”, ao pedido de interpretação e aferimento da constitucionalidade de uma lei que existe há 24 anos mas que nunca foi aplicada, ao horror a que as leis possam ser “literalmente” interpretadas (porque “literal” não rima com “favorecimento”) e, finalmente, à absoluta falta de vergonha, bom senso e responsabilidade de quem tinha a “literal” obrigação de ter tudo isto e muito mais.

Neste momento, o que mais me indigna não são os negócios, os amiguismos, as ilegalidades, os encobrimentos, os oportunismos, os “literalmente”, os “vamos ser responsáveis e sérios”… não, o que me indigna (de uma maneira muito para além do que é possível dizer em palavras) é a constatação do total desprezo e indiferença, pelos sonhos, projectos de vida e profundo investimento de tantos/as, no Vale das Luadas (entre tantos outros lugares deste país já fustigados pelo fogo), um Vale que estava protegido e amado pelas mãos e pelo trabalho de quem o tinha escolhido, como local de construção pessoal e palco de vida.

E, por favor, não se enganem: eu quero que a direita perca todas as eleições, incluindo as de Outubro próximo! Mas exijo que a decência e o respeito pelo povo as ganhe. Literalmente.