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As low cost, a liberalização e a privatização

A Ryanair, campeã das low cost, apresentou lucros de 1,29 mil milhões de euros só no primeiro semestre de 2017. As receitas da companhia aérea fluem, não apenas dos bilhetes vendidos, mas também dos subsídios públicos que recebe, para não falar das “poupanças” que derivam do desrespeito pelos direitos dos seus trabalhadores. As viagens low cost não o são na realidade, são tão bem pagas que chegam para cobrir os custos da operação e ainda gerar lucros bilionários.

Mas esses lucros também trazem outros problemas. Os perigos da dependência da Ryanair estão à vista: à primeira contrariedade, como foi o caso da justíssima greve do pessoal de voo da empresa em Portugal, a Ryanair ameaça reduzir a operação no nosso país.

No último trimestre de 2017, a Ryanair foi a segunda companhia em número de passageiros no aeroporto de Ponta Delgada - atrás da SATA Internacional e à frente da TAP - e opera, em exclusivo, a rota Terceira-Porto-Terceira, que a SATA Internacional abandonou alegadamente devido à concorrência da Ryanair, numa rota em que esta companhia é subsidiada, ao contrário do que acontecia com a SATA…

Não é difícil perceber que, nas rotas para os Açores, liberalizadas pelo governo PSD/CDS e pelo Governo Regional do PS, estamos perante uma situação de elevado risco.

Podem alguns dizer que a SATA é o garante da mobilidade em caso de abandono das rotas liberalizadas por parte de outras companhias. Mas a SATA Internacional está em pleno processo de privatização e a Região, com essa decisão, abdica do controlo efetivo da companhia. E é o próprio caderno de encargos da privatização que o confirma, ao prever que seja o futuro accionista, supostamente minoritário, a elaborar o plano estratégico da empresa.

Por sua vez, a TAP, sem aviso prévio e sem explicações oficiais, tem cancelado dezenas de voos, muitos deles para as regiões autónomas. Como não existem obrigações de serviço público nestas rotas para as regiões, a empresa não é sujeita a qualquer multa por estes cancelamentos.

PS, PSD e CDS, todos eles autointitulados “pais” da liberalização, agora fingem que não tiveram nada a ver com o assunto e assumem-se preocupados com os cancelamentos dos voos da TAP.

Para agravar tudo isto, está em curso a revisão do subsídio de mobilidade pago aos passageiros residentes nas rotas entre os Açores, a Madeira e o Continente. Esta revisão poderá levar a restrições, no que diz respeito aos valores dos bilhetes e aos voos que poderão ser utilizados pelos residentes, condicionando potencialmente a oferta e aumentando os preços suportados pelos passageiros residentes.

Como a realidade demonstra, esta liberalização conjugada com a privatização da SATA Internacional pode deixar as ligações dos açorianos e açorianas com o continente nas mãos da Ryanair e de David Neeleman - um dos potenciais compradores da SATA Internacional - ou de outra empresa cujos interesses não são coincidentes com os dos Açores.