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Mobilidade sustentável

Muito se tem falado da mobilidade elétrica, sem que se dê a mesma importância aos transportes coletivos. É como se tentassem construir uma casa a partir do telhado. Um princípio que parece persistir, e que não se limita à visão estreita na mobilidade terrestre, e que trespassa grande parte das políticas da Região, com maior visibilidade nos transportes.

Não é que se deva desconsiderar os transportes aéreos e marítimos, nem mesmo a importância de termos automóveis elétricos a preços mais acessíveis, mas devemos dar maior importância à modalidade de transporte mais básica, a que está (ou deveria estar) mais presente no nosso quotidiano e, porventura, aquela que maior contribuição dará para reduzir a nossa pegada ambiental.

Se pensarmos bem, é possível, e até bastante comum, que muitos de nós utilizem com maior frequência o avião do que os transportes coletivos terrestres, naquele que é o primeiro sinal de que algo está errado na política de transportes na Região.

De que vale anunciar apoios para a aquisição de veículos elétricos, se o transporte coletivo continua a não ser uma opção viável para a maioria das pessoas? Porque é que tal modalidade de transporte continua limitada ao transporte escolar? E excluindo o transporte escolar, fortemente associada a determinados meios sociais, precisamente quem tem menos poder de compra, mas que sai penalizado por um custo desta modalidade de transporte muitas vezes incomportável.

É sobretudo um custo incomportável para quem, apesar de trabalhar, aufere do salário mínimo. Só para se ter uma ideia muito concreta e próxima da nossa realidade: alguém com residência nos Biscoitos, com trabalho em Angra, cuja retribuição não supere o salário mínimo, terá que despender, mensalmente, o correspondente a sensivelmente 10% do seu salário.

Bem sei que a oferta de carreiras não é maior devido à falta de procura. Mas também é possível inverter a lógica, e questionar se, aliado à redução dos tarifários e sua flexibilização, a oferta de um maior número de carreiras não fará aumentar a procura?

Por experiência própria, bem que tento utilizar, sempre que possível, o transporte coletivo de passageiros, mas, ultimamente, por alterações na minha vida familiar que não me permitem compatibilizar com o horário das carreiras para sair e entrar em Angra, vejo-me forçado a recorrer ao automóvel. E, como eu, muitos terceirenses poderiam utilizar com maior frequência o transporte coletivo, se o número de carreiras e sua articulação permitissem uma maior compatibilização horária com as necessidades das pessoas.

A frequência das carreiras e compatibilização dos seus horários à vida das pessoas são fatores determinantes para aumentar o número de passageiros. A prova da validade deste princípio encontra-se no sucesso da rede de minibuses comparativamente à rede de carreiras entre as freguesias e a cidade.

Um centro urbano, como é Angra do Heroísmo, tem tudo a ganhar com uma boa rede de transportes coletivos que proporcione a oportunidade para se abrir ao meio rural. É uma forma privilegiada de não só trazer gente a Angra como também de levar gente para as freguesias. A questão dos transportes coletivos está longe de ser algo de somenos importância, reduzida ao transporte escolar e como transporte associado a determinados meios sociais, deve ir para além disso, e tem um potencial enorme para devolver a cidade e as freguesias às pessoas, com impacto no turismo, tal como o Professor Maduro Dias fez questão de sublinhar num artigo de opinião, publicado há umas poucas semanas.

Podemos ter uma boa rede de transportes coletivos associada à mobilidade elétrica, até porque a pegada ambiental poderá ser mais atenuada se os autocarros forem movidos a eletricidade ou outra fonte de energia menos poluente.

Depois de termos assistido à proibição da circulação dos transportes coletivos na Guarita, como se fossem os grandes causadores dos problemas de trânsito, e não os automóveis que por lá param ou estacionam, irregularmente, a central de camionagem da cidade parece ter ficado esquecida.

Para o Bloco de Esquerda, uma central de camionagem no parque dos celeiros, com a instalação do mercado municipal, seria o projeto ideal para reaproveitar uma das muitas zonas da cidade desaproveitadas e abandonadas, naquele que passaria a ser o centro da confluência do rural com o urbano, e que serviria de placa giratória para distribuir as pessoas pela cidade, tendo em consideração o movimento pendular resultante dos horários de trabalho e atividade comercial, com a vantagem adicional de retirar o trânsito ao centro da cidade.

Se queremos devolver a cidade às pessoas, esse é um objetivo que também se cumpre através de uma rede de transportes coletivos adequada às características do meio, às necessidades de quem vive na cidade, e de quem se descoloca para a cidade. É claro que não é tudo, mas é um passo importante a ser dado, mas para isso é fundamental ter vontade política para cumprir a visão de uma cidade, sede de concelho, em vez de uma cidade fechada sobre si própria.