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O bobo da corte

 

 “… divertia o rei e os áulicos. Declamava poesias, dançava, tocava algum instrumento e era o cerimoniário das festas. De maneira geral era inteligente, atrevido e sagaz. Dizia o que o povo gostaria de dizer ao rei e zombava da corte. Com ironia mostrava as duas faces da realidade, revelando as discordâncias íntimas e expondo as ambições do rei...”

(Definição Wikipedia)

Escrevo num momento em que não sei qual será o teor da comunicação de Cavaco ao país. No entanto, tendo em conta que já nos habituou à sua veia de criador, tudo é de esperar. Os comentadores de serviço estão baralhados e, embora apontem apenas três soluções possíveis – manter tudo como está, aceitar a remodelação proposta ou convocar eleições antecipadas – limitam o leque às duas primeiras, o que é lógico, por dedução do que tem afirmado Cavaco sobre a terceira opção.

O próprio Cavaco deve sentir-se baralhado com o sucessivo insucesso das suas soluções. O criador da situação em que Portugal se encontra desde que, enquanto governante, destruiu os sectores primários da nossa economia, até que, enquanto Presidente da República e representante do sonho da direita – um Presidente, um Governo e uma maioria – patrocina a destruição do tecido empresarial, o aumento incontrolado do desemprego, a venda ao desbarato dos nossos recursos e o aumento da nossa dívida externa, enredou-se num labirinto que desembocou no atual beco.

Cavaco, fiel representante político das aspirações da direita, alienou as suas responsabilidades de Presidente da República, trocando-as pelas funções modernas de Bobo da Corte, funcionário político dos interesses especulativos. Diz em Portugal o que deveria dizer na Europa, enquanto facilita no país os interesses contrários à nossa soberania nacional. O Bobo do século XXI, tal como o seu homólogo medieval, não é bobo, tem a missão de divertir a chancelaria, enquanto adormece o povo.

O criador quer desresponsabilizar-se da tragicomédia em que mergulhou Portugal. No seu papel de Bobo da Corte, tenta encostar os partidos da “troika” à parede e acena ao PS com a cenoura de eleições antecipadas em 2014, a tal antecipação que o próprio diz não defender. Mas a estratégia não foi atingida face às táticas erradas e aos interesses pessoais e partidários envolvidos.

O PSD agarra-se desesperadamente a este governo e manda recados a Cavaco e ao CDS quanto à necessidade de manter coesa a coligação, porque sabe, de antemão, que nas urnas sofreria pesada derrota.

O CDS, como é seu apanágio, vai dando o dito pelo não dito, revogando o irrevogável, e acusando agora o PS de apresentar propostas que o próprio CDS, há poucos dias, defendia e que motivaram o pedido de demissão de Paulo Portas.

A direção do PS aproveitou o ensejo para tomar o pulso às suas bases. Declarou de imediato que não é pressionável. Sem referir que tipo de pressões rejeitava, jogou nos dois campos, oscilando entre a recusa do acordo de direita e um não desejado entendimento à esquerda. O coro de ameaças vindas de “pesos pesados” e do interior do seu próprio partido deram a indicação a Seguro. Como sempre, nestas situações, o PS optou pela zona cinzenta, numa perspetiva calculista de que o governo cairá de podre, não se preocupando com a situação do país, mas, unicamente com os interesses eleiçoeiros do seu partido.

O não pressionável Cavaco sente-se pressionado por todos os lados e terá que engolir algum sapo, provavelmente a remodelação que recusou, ninguém sabe. Mas, perante esta encruzilhada - com opções de “salvação” invariavelmente infrutíferas - há uma alternativa: a sua renúncia ao cargo, por incompetência ou por incapacidade, para mim tanto faz.