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O bolo e a parte do leão

O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou, recentemente, dados estatísticos definitivos sobre as contas das regiões, para o ano de 2015.

Como era esperado, em 2015, os Açores tiveram um crescimento do PIB de 3%, número que está relacionado com o crescimento das atividades económicas ligadas ao turismo, como é confirmado pelo INE.

Se o PIB cresceu e, segundo os dados provisórios, continuou a crescer em 2016, é sinal de que mais riqueza foi criada. O problema está efetivamente na forma como esta riqueza foi e continua a ser distribuída. Se representarmos a riqueza criada como sendo um bolo, quem é que come a parte do leão?

Nos dados agora divulgados pelo INE, verifica-se que, num cenário de crescimento do PIB de 3%, o salário médio nos Açores caiu 3,9%! Ou seja, criou-se riqueza mas ela não chegou ao bolso de quem, todos os dias, saiu de casa para trabalhar 7, 8 ou mais horas por dia para a criar.

Este cenário levou ainda à redução dos custos do trabalho em 0,5%! Produzir nos Açores passou a ser mais barato, à custa de quem trabalha! O que sucedeu nos Açores foi exatamente o oposto do que teve lugar a nível nacional, onde a remuneração média subiu, muito ligeiramente, é certo.

Afinal quem ganhou com este crescimento económico? Afinal para que serve o crescimento económico se não para reduzir as desigualdades através da justa distribuição da riqueza produzida? A riqueza criada serviu apenas a alguns. Os trabalhadores ficaram a ver navios e os aumentos salariais, que seriam mais do que justos e expectáveis, ficaram, mais uma vez, na gaveta! Aliás, aumentos salariais nos Açores são fenómenos de extrema raridade, paradoxalmente, até nos setores como o turismo, que crescem anualmente a dois dígitos, aumentos não existem!

Não havendo dados definitivos para 2016 e muito menos para 2017, tendo em conta os dados provisórios de crescimento e a ausência de aumentos salariais, não é difícil adivinhar o que está a acontecer ao salário médio: este aproxima-se cada vez mais, e perigosamente, do salário mínimo.

Perante este cenário o que faz o Governo Regional para melhorar a qualidade do emprego e reduzir  a desigual distribuição da riqueza produzida nos Açores? Cria incentivos, ou seja, despeja dinheiro para cima das empresas, para que contratem trabalhadores sem termo ou até a prazo, conforme o programa de incentivos. Para o governo do Partido Socialista, afinal, não existe qualquer responsabilidade social das empresas. Até para que estas cumpram com os seus mais básicos deveres para com os trabalhadores, o Governo acha que é preciso pagar-lhes!