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O Mastodonte da Vila

Desde 2010 que o Plano de Ordenamento Turístico da Região Autónoma dos Açores (POTRAA) se encontra parcialmente suspenso. Assim, o limite ao aumento do número de camas em várias ilhas foi removido, colocando nas mãos do Governo a autorização da construção de novos hotéis a partir de 150 camas. O ano de 2010 foi há muito tempo e essa suspensão teve lugar num contexto muito diferente do atual. O plano em vigor, além disso, terminava o seu período de vigência em 2015.

O novo POTRAA está em elaboração e até já esteve em consulta pública, dirão alguns. Mas o que vem o novo plano “planear” afinal? Quase tudo o que o novo plano devia evitar já se fez ou está em vias de se fazer.

Não será coincidência o absurdo número de novos mega-hotéis que se anunciam e licenciam em catadupa, principalmente na ilha de São Miguel. Licenciar tudo o que aparece antes que o POOTRA entre em vigor é a meta, com o alto patrocínio do Governo Regional dos Açores.

Confrontado com a aprovação de um novo hotel em Vila Franca do Campo com 580 camas - proporções verdadeiramente mastodônticas - o Governo Regional afirma que está de mãos atadas porque não há limites para o número de camas e que o novo POOTRA será a batuta para por ordem na casa. Pura hipocrisia política.

A suspensão do POTRAA não significa que se tenha que licenciar e apoiar todo e qualquer empreendimento turístico! Os grandes projetos, com mais de 150 camas, dependem de autorização do Governo.

Mas o mastodonte da Vila, que ninguém parece querer mas que já está licenciado, não é o único hotel na calha, nem sequer o único mega-hotel anunciado. Vejamos: novo hotel Monte Palace nas Sete Cidades – uma espécie de remake de um filme de série B - “O Regresso do Elefante Branco” - com 176 quartos e certamente mais de 300 camas; um novo hotel na zona do Monte Verde, na Ribeira Grande, com 153 quartos, certamente com mais de 300 camas também; Um novo hotel na Lagoa com 101 quartos; o novo hotel na Calheta de Pêro de Teive, com 109 quartos. E esta não é uma lista exaustiva.

Só nestes grandes projetos estamos a falar de mais de 1500 camas, numa estimativa conservadora. Para compararmos, em 2018 o número de camas na hotelaria tradicional em São Miguel era de 5189! Tudo isto sem contar com os pequenos empreendimentos e o sempre crescente Alojamento Local que tornou as habitações disponíveis para arrendamento espécies em vias de extinção com terríveis consequências nos preços das rendas.

Esta “corrida ao ouro”, financiada com dinheiro público, poderá ter consequências desastrosas. A destruição de zonas costeiras e a descaracterização de centros urbanos são já uma certeza. Já experimentamos no passado as dificuldades económicas em caso de abrandamento do crescimento turístico ou até diminuição do número de visitantes. Desemprego, falências, uma manada de elefantes brancos e um mastodonte são apenas algumas das possíveis consequências.

Se para o Governo um mastodonte de 580 camas não se enquadra na estratégia para o turismo nos Açores, então só tem uma coisa a fazer: apenas aprovar o que se insere nessa estratégia, com ou sem POTRAA. De outra forma, as palavras bonitas sobre turismo sustentável e não massificado não passam da venda da banha da cobra.