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Os Bolsonaros que por aí andam

A eleição de Bolsonaro é (mais) um sintoma inequívoco de que a extrema-direita alastra perigosamente por vários continentes e latitudes. Bolsonaro é a extrema-direita que as condições existentes no Brasil permitiram: um país a braços com escândalos de corrupção, com níveis de violência extrema, um congresso onde se fazem negócios e não leis, um governo incapaz de responder aos problemas do país e ao aprofundando das desigualdades.

O resto, as suas diferenças - que existem - em relação a outros líderes que pela Europa fora ganham governos e lugares nos parlamentos, acabam por ser de forma. Bolsonaro, pela sua violência verbal, como as ameaças de fuzilamento dos militantes do PT, ultrapassa tudo aquilo que parecia possível surgir no Brasil há apenas alguns anos.

Mas a violência verbal de Bolsonaro não é gratuita, tem uma agenda. Quando alguém diz que quer “libertar o país da submissão ideológica” e “tornar o Brasil um país livre das amarras ideológicas”, o que pretende realmente é erradicar as ideologias contrárias às suas e impor o seu programa ideológico que para ele é o único admissível.

A isto junta-se o discurso de regresso a um passado glorioso, que tem paralelo com o “Make america great again” de Trump, que para Bolsonaro é o tempo da ditadura militar. Este saudosismo da ditadura faz temer pela democracia e pela segurança de quem resiste.

Mas mesmo sem colocar em causa a democracia, Bolsonaro pode fazer a sociedade brasileira regredir décadas. Os primeiros dias da sua governação confirmam o que será a sua presidência: Por exemplo, reduziu o aumento do salário mínimo para apenas R$ 998,00, quando estava previsto o aumento para R$ 1006,00 - agradecendo dessa forma aos patrões que o apoiaram - saiu do Pacto Global para a Migração e paralisou a reforma agrária.

Na Europa, outros Bolsonaros se passeiam. Com outras vestes, com uma linguagem menos violenta, crua e ameaçadora. Chamam-se Orban, Le Pen, Salvini. A Europa que castigou os povos com a austeridade abriu caminho e aceitou a sua ascensão. Perante o avanço da extrema-direita e as alianças que se desenham na Europa, entre os dois lados do Atlântico e os dois hemisférios, o que faz a UE? Afirma a solidariedade entre os povos? Investe nos serviços públicos? Desenha políticas para reduzir as desigualdades, à recepção e integração dos imigrantes e refugiados?

Não! A prioridade dos líderes europeus é a criação de um exército europeu! Macron e Merkel mal podem esperar a hora para ver desfilar em Paris e em Berlim um exército com o símbolo da UE bordado na farda. É o legado que Merkel quer deixar, antes de abandonar a política, e Trump é o pretexto perfeito. Em vez de encontrar respostas para os enormes problemas que vive a Europa, a solução da UE é esbanjar milhares de milhões para criar um exército, dando poder militar ao poder económico existente.

É para o exército europeu e para os seus alicerces que vai o dinheiro que deveria financiar políticas de coesão, os fundos estruturais, o combate às alterações climáticas, a criação de emprego e o combate à precariedade.

Esta Europa, com a casa a arder, só se lembra de atirar mais achas para a fogueira. Ignorar assim, ostensivamente, os problemas das pessoas é o que cria Bolsonaros, Orbans e afins.