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Os que saem

Os dados recentemente publicados pelo INE relativos às estatísticas demográficas de 2017 devem ser alvo de uma análise cuidada e não podem deixar de gerar preocupação. Em 2017 a região terá perdido 1421 habitantes, a maior quebra populacional desde que esta publicação existe, isto é, desde o ano 2000. Este registo ultrapassa até os anos mais negros da crise, quando em 2014 a região terá perdido 1087 habitantes. Nessa altura o PIB crescia a 1% e vinha de quedas fortíssimas nos anos anteriores.

Mas o que mais preocupa nestes dados é que essa quebra populacional deve-se sobretudo, não a uma forte diminuição da natalidade - que decresceu apenas ligeiramente relativamente a 2016 - mas ao saldo migratório. Ou seja, saíram muitos açorianos e açorianas das ilhas e pouca gente nelas fixou residência. Terão sido 1396 as pessoas que terão saído dos Açores em 2017.

No contexto nacional poderá até parecer pouco. Ainda assim, em termos absolutos essa queda só é inferior à verificada na região Norte, que tem uma população quase quinze vezes superior aos Açores, e em termos relativos é de longe a maior do país.

Estes números sem rosto, não nos falam dos projetos, dos sonhos, das famílias, das vidas de quem deixou os Açores em busca do que não encontrou por entre a bruma. A falta de dados e estudos leva-nos a especular sobre para onde terão ido essas pessoas, o que as moveu e se algum dia regressarão. Se alguns terão ido por convicção muitos, certamente a maioria, terá saído por necessidade.

Quem não conhece jovens que saem da região fartos do trabalho precário, do falso recibo verde e do contrato temporário na construção civil, ou na restauração na época alta ou ainda numa escola ao abrigo de um programa ocupacional? Homens e mulheres, jovens e menos jovens que fogem por um pouco de estabilidade e salários que cheguem até ao fim do mês.

Quem não conhece jovens que deixam os Açores para estudar e, embora desejem regressar aos Açores, às suas ilhas de origem, não encontram nelas melhores perspectivas do que um programa de estágios e, quem sabe, um programa ocupacional, renovado, ou não, conforme a preferência do dirigente?

Quem não conhece o/a enfermeiro/a que, sabendo que o Centro de Saúde e o Hospital precisa dele/a, embarca para Inglaterra porque os concursos não abrem e há contas para pagar e uma vida que não pode ficar em suspenso?

Desde 2013 que temos crescimento positivo do PIB. Esta é portanto uma fase em que o crescimento económico é inquestionável. Esse dado torna ainda mais preocupante a saída de milhares de açorianos/as das ilhas. É um sinal de que o crescimento não está a servir para fixar e atrair quem aqui queira viver e usufruir da qualidade de vida que estas ilhas podem oferecer. O crescimento serve pois para engordar os poucos que “comem a galinha toda” enquanto muitos têm de ir buscar o sustento a outras paragens.

O “novo ciclo” económico que o Partido Socialista apregoou meses a fio, afinal não serve sequer para estancar a emigração forçada. É o ciclo da continuação do aprofundamento das desigualdades, como os números nos dão conta. Se as políticas deste Governo Regional têm este efeito em tempos de crescimento, imagine-se o que será em tempos de crise.