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A Partex a olhar para fundo do mar dos Açores

Recentemente a Partex, através do presidente da sua comissão executiva, António Costa Silva, falou novamente dos Açores e do mar que nos rodeia. É difícil contabilizar as inúmeras vezes que a Partex emite opiniões sobre o potencial dos Açores, sobre a nossa posição no Atlântico, e agora sobre os nossos recursos minerais e biológicos. Não será por acaso.

Importa por isso saber, em primeiro lugar, quem é a Partex Oil and Gas e que interesses tem nos Açores. Como é fácil reconhecer pelo nome, a empresa, detida pela Fundação Calouste Gulbenkian, está ligada à exploração petrolífera em vários continentes, incluindo exploração offshore. A sua atividade é na área das matérias-primas, portanto.

Não admira por isso o interesse nas matérias-primas existentes em redor dos Açores. Elas são muitas e é claro o interesse de várias indústrias, que mal podem esperar para se chegar ao dia em que a mineração do mar profundo avance com toda a força. Argumentos não faltam, até o de que para deixarmos de depender do petróleo e transitarmos para as energias renováveis temos que continuar a perfurar e a escavar o fundo oceânico, não para extrair o ouro negro, mas o cobalto, o níquel e os sulfuretos polimetálicos, entre outros recursos. Para quem está no negócio de escavação e perfuração é uma “transição” bastante atrativa e suave.

É também revelador que a Partex tenha pressa e até diga que se devia dar mais atenção à Nautilus, empresa que tinha um projeto de exploração mineral nos fundos marinhos dos Açores. É normal que assim seja, apesar dos pesados investimentos iniciais, a exploração mineral é simples: escava-se e vende-se o produto mais ou menos puro. O retorno começa imediatamente é palpável e visível a curto prazo. O produto é rapidamente vendável para as empresas que realizam a exploração, os proveitos são fáceis de medir e os Estados recebem uma pequena parte destes, através de royalties ou outra forma de renda. Aparentemente todos ganham!

Só que a mineração, ainda por cima quando falamos de mineração dos fundos marinhos terá de “varrer” largas áreas de fundo, incluindo as fontes hidrotermais, as jóias da coroa do nosso mar. É nelas que habitam seres que mal conhecemos, que temos o dever de os estudar e preservar e que para além do mais, têm um enorme potencial de desenvolvimento biotecnológico. Por exemplo, atualmente, a partir de mexilhões que habitam nessas zonas, já é possível desenvolver tecnologia para regeneração da pele em caso de queimaduras graves.

Quem sabe o que mais se poderá desenvolver a partir destes seres e do seu estudo? Como medir o impacto que essas descobertas poderão ter na medicina, na farmacêutica e principalmente na qualidade de vida futura da humanidade? É, para além disso, enorme o impacto que este desenvolvimento pode ter nos Açores, no emprego, na transição para uma economia que não viva do curto prazo e dos produtos a baixo preço.

A mineração, que a Partex e tantos outros tanto desejam que avance a toda a força e já, é o lucro fácil, imediato e potencialmente danoso para o ambiente e para outras atividades ligadas ao mar. O que faremos com o nosso mar e como o iremos gerir é por isso uma escolha fundamental para o nosso desenvolvimento.