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Política ambiental ou marketing?

“Açores, certificado pela natureza” é o slogan de promoção turística dos Açores. O nosso arquipélago tem, do ponto de vista da paisagem e dos ecossistemas, características que o torna singular. A preservação do que de melhor temos e a melhoria da qualidade ambiental das nossas ilhas e do mar que as rodeia devem ser prioridades políticas mas que devem ir muito além do marketing.

A valorização da nossa qualidade ambiental é visível na estratégia de promoção dos Açores, como se vê na frase que abre este artigo. No entanto, a realidade não é tão azul e verde. Este verão foi fértil em decisões, omissões e acontecimentos, que levantam o véu sobre a nossa vulnerabilidade em relação a fenómenos pouco frequentes - mas que podem tornar-se mais frequentes e intensos devido às alterações climáticas,– e em acontecimentos que mostraram subordinação da proteção ambiental aos interesses económicos e partidários.

A seca que recentemente afetou os Açores revelou a impreparação das autoridades para situações extremas desta natureza.

Mas mais grave do que a impreparação é a incúria e o desrespeito pela natureza que começa por quem devia dar o exemplo. Soubemos, em agosto, que a polícia marítima autuou a empresa COFACO, em Rabo de Peixe, pela descarga de águas poluentes no mar. Em consequência a Inspeção Regional do Ambiente realizou uma inspeção à fábrica. Perante este facto só se pode perguntar, porquê só agora? Toda a população daquela vila e as autoridades competentes sabem, fruto das inúmeras denúncias, das descargas poluentes recorrentes e que se devem ao mau funcionamento da ETAR. Mas inacreditavelmente nada acontecia e a Inspeção Regional do Ambiente assobiava para o lado. Será desta que há consequências?

Mas são também as entidades públicas a cometer verdadeiros atentados ambientais, com a cumplicidade de quem deveria zelar pela proteção do ambiente. A Câmara Municipal das Lajes do Pico, decidiu montar, pela segunda vez, uma tenda gigante no Paúl das Lajes do Pico. Esta é uma Área Protegida para a Gestão de Habitats ou Espécies das Lajes do Pico e é parte da Rede NATURA. Incompreensivelmente o governo regional diz que não há problema em que a zona seja terraplanada e lá seja colocada uma tenda gigante porque, segundo a tutela, não há espécies protegidas naquele local. É inqualificável esta atitude!

Este é um governo que não defende as zonas protegidas mais sensíveis como o Paúl das Lajes do Pico para satisfazer um capricho do presidente da Câmara. É um governo que ignora, durante anos, as descargas poluentes da COFACO no mar. A proteção do ambiente só vigora enquanto os valores mais altos do PS e dos grandes grupos económicos não se levantam. A política ambiental do governo regional caminha também ela para uma manobra de marketing turístico.