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Porto espacial em Santa Maria

Que benefícios poderá trazer a instalação de um porto espacial para o lançamento de pequenos satélites para a população de Santa Maria? Segundo o que foi referido por Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, o objetivo é "multiplicar por dez vezes a faturação da indústria espacial portuguesa até 2030, passando de 40 para 400 milhões de euros por ano, criar 1000 empregos no setor - 100 por ano - e atrair 2% dos fundos europeus para o Espaço nos sete anos do próximo quadro financeiro da UE, isto é, cerca de 320 milhões de euros".

O ministro adianta ainda que a "Portugal Space vai ser um instrumento do Governo, em estreita articulação com o Governo Regional dos Açores e em parceria com a ESA, que tem interesse em que sejam criados nos seus estados-membros estruturas descentralizadas”.

Mas será o real impacto deste projeto satisfatório para a economia local? As entidades enquadrantes neste acordo proferem que haverá uma alavancagem para a Região na ótica do desenvolvimento económico da própria ilha, com a criação de 45 postos de trabalho diretos, e com uma criação de postos de trabalho indiretos ainda mais expressiva. “Quantos deste 45 postos de trabalho serão para a população local? Serão apenas para a ‘equipa de limpeza’? Onde se vão encontrar pessoas especializadas em tão curto espaço de tempo?”. Estas são algumas das perguntas que alguns marienses fazem. Sendo óbvio que os postos de trabalho especializado serão ocupados por pessoas que não estão neste momento em Santa Maria, a economia local irá beneficiar, numa primeira fase com o aumento substancial da procura no comércio local. Além disso, os serviços de saúde da ilha terão que ser reforçados para poder fazer face ao aumento populacional. Será que estas medidas e os devidos investimentos já estão calculados?

E sobre a especialização de recursos humanos, será que a devida formação já está a ser feita na ilha? A Escola Básica e Secundária tem um curso profissional na área do Ambiente, mas este revelou ser um fracasso porque nem um jovem formado nesta área teve colocação na sua área de formação na própria ilha.

Quem são os prejudicados com a instalação deste projeto espacial em Santa Maria? Até hoje – dizem as entidades – apenas uma senhora que reside nas proximidades. Mas a própria está disposta a abdicar da sua habitação – que está  dentro do perímetro de segurança – para contribuir para o desenvolvimento económico da ilha. O perímetro de segurança em torno do porto espacial é de cerca de 700 a 950 metros, dependendo do tipo do lançador que vier a ser instalado. No mar, a área de segurança estende-se por 60 milhas. Mas aquilo que pode causar mais incómodo é o chamado aviso prévio, que obriga à interdição de circulação de todos os transportes marítimos e aéreos durante 8 horas, quando são efetuados lançamentos, e que impossibilita também os habitantes e turistas de circular nas zonas envolventes do porto espacial, incluindo trilhos pedestres.

Os marienses e os açorianos em geral necessitam de mais informação sobre este projeto. Se o real interesse é o desenvolvimento da economia local ou se passa apenas pelo recebimento de fundos da UE.

O que já está a ser feito em Portugal continental no âmbito da aposta no espaço?

Recentemente, o embaixador da República Popular da China em Portugal esteve na cidade de Matosinhos, onde será instalada um dos polos do STARlab, já a partir de março de 2019. De acordo com o jornal Expresso, “este projeto consiste na criação de um laboratório de investigação e desenvolvimento tecnológico para o espaço e para os oceanos. O investimento, no valor de 50 milhões de euros, ao longo de cinco anos, será repartido entre Portugal e a China. O CEIIA será responsável pela investigação na área dos Oceanos. Já a área do Espaço será desenvolvida em Peniche, pela Tekever. Mas este não foi o único investimento anunciado pelo Presidente chinês para Matosinhos. A COFCO International e a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) chegaram a acordo para a instalação em Matosinhos de um Centro de Serviços Partilhados. O centro ficará situado no Centro Empresarial da Lionesa e arrancará com 150 postos de trabalho num total previsto de 400 ao fim de quatro anos. Os postos de trabalho vão cobrir as áreas de Tecnologias de Informação, Procurement, Recursos Humanos e Financeiras”.

Santa Maria terá menos postos de trabalho diretos do que estes polos que irão fabricar satélites para todo o mundo. Mais uma vez a área geográfica e a maximização dos lucros desses monopólios falam mais alto do que o principal interesse que devia ser criar empregos qualificados.