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Os homens de branco

DDT é a sigla pela qual é conhecido o composto químico que foi amplamente utilizado como pesticida até à década de 70 do século passado. Era, à época, uma espécie de «bala de prata», não para matar lobisomens, mas para matar todos os rastejantes que incomodassem e que pudessem causar danos.

Hoje em dia, assistimos, à disseminação do glifosato. E tal e qual como foi no caso do DDT, este composto químico continua a ser visto como o remédio, não para exterminar todos os rastejantes, moscas e mosquitos, mas para todas ervas consideradas «daninhas».

A utilização do DDT até ser limitada, e mais tarde proibida, (por exemplo: na década de 70 nos EUA), era feita à vontade, tendo sido este o pesticida polvilhado pela via pública na Praia da Vitória, pelos norte-americanos, em viaturas que ficaram conhecidas como os «carros das moscas», com consequências para a saúde pública que, até hoje, são desconhecidas.

Agora, em pleno novo século, não sei se estaremos a ser bafejados pelos ares da modernidade em Angra do Heroísmo, mas estaremos a ser, certamente, por glifosato. Em vez do «carro das moscas», temos os «homens de branco» que esguicham aquele que, para o presidente da autarquia, deverá ser um néctar de desinfetante. Bem, pelo menos, têm tido o cuidado de equipar os trabalhadores que administram o potente herbicida.

Tal como o DDT no século XX, a generalização da utilização do glifosato acabou por tornar consensual a ideia de que não existem alternativas para atender à sua finalidade, mais uma inevitabilidade que levou a que a autarquia de Angra do Heroísmo não tivesse respondido, ao ter sido questionada sobre se recorria a tal herbicida, no ano passado, pelo grupo parlamentar do BE, na Assembleia da República.

Sabemos que o DDT leva imenso tempo a desaparecer no meio ambiente onde é libertado, razão para que a sua utilização se encontre, atualmente, proibida ou muito limitada no mundo ocidental, para evitar que este composto químico entre em contacto com pessoas e animais, o que acarreta efeitos nefastos para o ambiente e saúde.

O glifosato não desaparece do meio ambiente, onde é libertado, da forma tão imediata como nos querem fazer crer, e os seus efeitos cancerígenos são discutíveis, pelo que não é segura a vulgarização da sua utilização. Assim, a aplicação de glifosato durante anos, nas ruas de Angra do Heroísmo, poderá ter causado danos irreversíveis, ou talvez não. Contudo, e considerando o princípio da precaução, convinha procurar alternativas.

Espero que a recente aquisição, pela autarquia, de uma viatura equipada com monda térmica seja essa alternativa, ou será que o candidato Álamo Meneses teimará em continuar a polvilhar as ruas da cidade património mundial com glifosato tal como os norte-americanos o fizeram com DDT, no século passado, na Praia da Vitória?