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Surfistas ou peixe em decomposição?

Recentemente foi uma vez mais notícia uma descarga de resíduos orgânicos industriais (leia-se: restos de peixe putrefato) - proveniente da fábrica da COFACO em Rabo de Peixe, São Miguel, facto já confirmado pelo próprio governo regional. É a segunda descarga detetada pelas autoridades em menos de um ano. Da primeira, em agosto passado, desconhecem-se as consequências para o poluidor.

Desta vez, devido às correntes, a carga poluente deu à costa em locais muito próximos das instalações industriais. Toda a costa da cidade da Ribeira Grande - desde a praia de Santa Bárbara até, pelo menos, à zona das piscinas foi afetada. Ficou clara a enorme quantidade de carga poluente que manchou de amarelo o areal de Santa Bárbara.

A praia de Santa Bárbara, de enorme beleza, é frequentada por muitos banhistas no verão e por surfistas todo o ano. Esta é por isso também uma questão de saúde pública. O cheiro, esse, não engana: restos de atum em decomposição.

Rejeito a lógica de que a qualidade ambiental da nossa região é em primeiro lugar para atrair turistas. A qualidade ambiental, a preservação dos ecossistemas são valores em si mesmo que temos obrigação de garantir e que beneficiam em, primeira linha, quem nos Açores vive.

No entanto, não é possível deixar de contrapor a forma como é promovida pelo município aquela costa da ilha de São Miguel e o concelho da Ribeira Grande - “Ribeira Grande - Capital do Surf” - com o cenário que se vê por estes dias. Como reagiriam os surfistas de todo o mundo que participam nas provas internacionais de surf que se realizam naquela praia? Que recordações levariam para casa dos Açores? Como noticiaria a comunicação social nacional e internacional especializada se se deparasse com um areal poluído e com cheiro nauseabundo? Não é difícil adivinhar e antever as suas consequências. Não basta criar marcas e slogans, o mais importante é mesmo garantir que a tal “Capital do Surf” tenha condições para o ser.

Perante este crime ambiental continuado que é um ataque ao futuro da Ribeira Grande é ensurdecedor o silêncio do Presidente da Câmara, que registou a marca “Capital do Surf”.

E o cenário não é novo. Há vários anos que se repete, mesmo existindo uma Estação de Tratamento de Resíduos Industriais (ETARI) na unidade fabril, financiada, como outros investimentos da empresa com dinheiros públicos: quase 9ME nos últimos anos. Já perdi a conta às vezes que o Bloco de Esquerda alertou para o problema publicamente. Não é possível falar com um morador de Rabo de Peixe que viva próximo da fábrica que não se queixe dos maus cheiros e das descargas da fábrica que pintam o mar de amarelo.

Tudo isto acontece recorrentemente à vista de todos perante a completa inoperância da autoridade ambiental - a Direção Regional do Ambiente. Diria mais, só fechando os olhos com toda a força é que é possível ignorar e não atuar com mão pesada. Nos últimos meses as autoridades policiais detetaram descargas poluentes no mar. Agora é preciso que existam consequências e, mais importante ainda, que se exija à empresa a resolução definitiva do problema.

Nas águas do areal de Santa Bárbara queremos ver surfistas e não peixe em decomposição.