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Suspensão de cirurgias: Investir no SRS!

A suspensão de cirurgias no Hospital de P. Delgada (HDES) causou enorme preocupação em toda a região. Apesar deste hospital servir principalmente as populações de São Miguel e Santa Maria, são muitos os/as doentes de todas as ilhas que têm ou tiveram assistência nesta unidade de saúde. Quando uma peça central do Serviço Regional de Saúde (SRS) suspende uma área nevrálgica como a cirurgia por “enorme pressão a nível dos internamentos" é sinal que se atingiu um ponto de enorme gravidade.

Passadas quase duas semanas deste acontecimento, muitas informações vieram a público e, apesar da necessidade de se obter mais esclarecimentos acerca das causas e consequências da capacidade de resposta do HDES, é possível retirar algumas conclusões acerca deste incidente.

Em primeiro lugar, quando se chega a uma situação limite deste tipo sem que haja um acontecimento de excepcional gravidade que leve a um afluxo anormal de doentes com necessidade de internamento ao hospital, então só se pode concluir que o HDES e o SRS têm falta de recursos! E os recursos não são apenas financeiros, humanos e ao nível dos equipamentos! Os recursos são também a atenção que a tutela dedica (ou não) à gestão eficiente do SRS e na articulação com outras áreas.

Como nota, diga-se que a gripe anual não pode de forma alguma cair na classificação absurda de “momento atípico crónico”, como fez o Diretor Regional da Saúde. A gripe anual, faz-se sentir com mais ou menos intensidade a cada ano e os serviços de saúde têm de estar necessariamente preparados para estes picos de afluência e muito mais, sob pena de colapsarem em reais situações excepcionais!

Em segundo lugar, há uma enorme carência de respostas ao nível dos cuidados continuados e de respostas sociais para idosos/as. É o próprio diretor clínico do HDES a afirmar que o HDES não pode ser centro de saúde nem de acolhimento. E tem razão. O que é certo é que se construiu um novo Centro de Saúde em P. Delgada, dotado de excelentes instalações mas alguém se “esqueceu” que seria importante ter uma Unidade de Cuidados Continuados, como acontece em tantos Centros de Saúde na região! Porquê e para quê? Se é essa a opção para o novo Centro de Saúde da Horta, ainda é tempo de a corrigir.

Na área social, a escassez de camas em lares é gritante e levou o Governo Regional a anunciar já 97 camas em São Miguel até final do ano. Agora? “Não se pode fazer tudo ao mesmo tempo”, dirão alguns. É verdade, os recursos são finitos.

Mas o que é que é mais vantajoso, mesmo numa tacanha lógica puramente economicista? Pessoas internadas num hospital desnecessariamente, com os enormes custos que isso acarreta, ou o investimento em camas de cuidados continuados, lares e apoio domiciliário? Mas o mais preocupante é o drama humano, o impacto social e na saúde de quem está internado sem razão e sente a falta da resposta social, e para quem espera e desespera por uma cirurgia para ter qualidade de vida.

Colocar o SRS no centro das preocupações, com os necessários recursos e apostar em forte organização e articulação entre a saúde e outras áreas é o que pode trazer mais e melhor acesso à saúde aos açorianos/as. Não há cheque ou convenção com privados que substitua o investimento necessário. Só assim é possível um  SRS mais forte!