Share |

Um deputado em greve de fome e subsídios de refeição de valor inferior ao custo duma bica

A língua portuguesa é tão rica no seu léxico que me irrita solenemente o uso desnecessário de tantos estrangeirismos. Porém, faltam predicados e adjetivos que verbalizem corretamente determinadas ideias.

Causa-me embaraço dizer a alguém que gostaria de ter ido ao funeral do pai, mas desconhecia o seu falecimento. Não encontro um substituto para o verbo gostar que possa traduzir o que me vai na alma naquele momento, mas também não conheço um estrangeirismo que possa colmatar esta falha no nosso léxico.

O mesmo se passa, agora, com a busca dum adjetivo que possa qualificar a declaração do Presidente do Governo Regional dos Açores sobre a forma de protesto adotada por um deputado desta Região para denunciar e chamar a atenção para uma injustiça praticada na Ilha do Corvo. Indiferença, desrespeito, insensibilidade ou prepotência são adjetivos que se podem aplicar à atitude insensata do governante. Mas nenhum tem a carga psicológica que esta atitude representa.

No entanto, para a ação encetada pelo deputado, há qualificativos suficientes. Para mim, esta é uma atitude desadequada ao problema em causa e peca por vulgarizar uma forma de luta que é utilizada em situações extremas.

Independentemente da justa reivindicação dos corvinos e da necessidade do governo se retratar dando a devida solução ao problema, o oportunismo político e o populismo são bons adjetivos e não há necessidade de se recorrer a qualquer palavra de origem estranha.

Poderia, aqui, utilizando a genuinidade o nosso léxico, tecer uma panóplia de elogios em defesa da atitude do deputado e esmagar a arrogância do governante com um arrazoado de epítetos, mas a política é para ser levada a sério, e a verdade política nem sempre rima com o politicamente correto.