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Intervenções:

  • Permitam-me três notas: grande parte da falta de choque pelo assassinato em si advém da normalização da violência de armas (já houve 81 tiroteios em escolas só este ano); uma grande parte das reações ao suspeito foram no sentido de o tornar um sex symbol; por fim, a sua idolatria como justiceiro demonstra a nossa tendência ao culto do chefe.

  • Sou o indivíduo mais jovem presente nesta sala, sendo inevitável, portanto, falar sobre os jovens, por onde começo:

Opinião:

  • A nossa tendência para o facilitismo sempre esteve connosco, simplesmente se evidencia mais agora, porque o progresso tecnológico tem seguido uma lógica exponencial, sendo que a cada dia há cada vez mais novidades – uma verdadeira aceleração que nos impacta de mil e uma formas e que já aqui falámos. Claro que o desenvolvimento tecnológico não é inocente, dão-nos coisas para nos viciarmos, de modo a nos tornarmos nós próprios o produto, a mercadoria.

  • Nas nossas ilhas, onde o mar nos ensina que não há meio termo entre a terra e o abismo, deveríamos ser os primeiros a entender que a neutralidade é uma ficção de quem está seguro no cais. Quando o debate público se resume a uma busca incessante por um centro morno, o que estamos a fazer é multiplicar a nossa humanidade por zero. E, como aprendemos desde cedo, multiplicar por zero dá sempre zero. Não importa quão grande seja o valor da dignidade que colocamos na equação; se o fator multiplicador for a nossa indiferença «neutra», o resultado será a nulidade absoluta.

  • O país está a viver dias trágicos. Perante o sofrimento de tantas famílias vítimas de tragédias naturais, ficámos atónitos com a proximidade dessa dor. A campanha para a segunda volta das presidenciais ficou num plano distante, na verdade, quase parece que nem houve eleições. Bem sei que ainda assim houve a polémica sobre o adiamento das eleições. Na prática, um movimento demagógico: a lei já contempla que locais em estado de calamidade possam fazer esse adiamento – tanto que aconteceu. Um triste exemplo de instrumentalização das vítimas.

  • Por vezes, aquilo que mais apetece é estar estatelado e enroscado na cama. Isto acontece, porque tanto na experiência de adormecer, como naquela de acordar, estamos munidos de conforto. Um colchão confortável, lençóis macios, dois edredões dentro de uma capa extraordinariamente fofa pelo número de anos que têm,… Conforto e segurança ímpares em relação ao resto do dia.

  • E se não queremos que as imagens de violência que hoje nos chocam se tornem o cenário da nossa própria realidade amanhã, temos de quebrar esta inércia. Temos de ser mais do que olhos que veem; temos de ser cidadãos que sentem e que agem.

  • A política como corrida de cavalos não é somente um sintoma, mas também uma causa moldando a discussão e reflexão no espaço público. São inúmeros os outros sintomas que se tornam causas, justamente por serem esses fenómenos que permitem a manutenção de uma organização societária tão injusta e desigual. 

  • Estas são umas eleições em que o voto útil menos sentido faz, afinal, já basta a segunda volta para votarmos no «menor mal». Podemos votar em quem de facto acreditamos. Isto não é importante numa visão romântica da política, é vital para a democracia que assim seja: votarmos com base no medo de algo não soa nada democrático. É triste que a maior parte dos presidenciáveis opte por tentar manipular o voto útil – tendo uma grande ajuda das sondagens na tentativa de moldar a opinião pública.

  • Apercebi-me do erro de perceção que podemos ter: estas respostas não são reacionárias, uma postura conservadora, antes um exame crítico. São a bolsa de ar do conhecido para escrutinar o desconhecido. Estamos num constante jogo de resignificação.

  • Olha, que bela resolução de ano novo: fazermos o possível para mudar esta sociedade que nos esgota.

  • A greve conseguiu algo verdadeiramente extraordinário: quebrar o monopólio de temas da extrema-direita omnipresentes na esfera pública, como é o caso da imigração.