Temos de criar espaços sociais, políticos e institucionais que permitam isso mesmo: lugares de diálogo livre, de serenidade crítica e de respeito incondicional pela vida humana, onde a fronteira deixe de ser um pretexto para o ódio e se torne uma plataforma de responsabilidade e de constante construção comunitária.
Perante este cenário, o drama dos exames nacionais deixa de ser uma mera aferição de conhecimentos e passa a ser um dispositivo de desumanização pedagógica. Transforma a escola numa linha de montagem e os professores em meros administradores de tarefas cronicamente fatigados. Reduzir a dignidade do trabalho docente a este cumprimento mecânico de tarefas em fins de semana improvisados é abdicar da verdadeira práxis educativa.
Este é o momento bonito em que nos devemos aperceber que o mundo real somos nós e as nossas ações do quotidiano. Somos uma complexidade de autonomias e a política, na prática, é a sua gestão. Resta saber se a autonomia do outro está em competição com a nossa ou se uma só existe porque existe a outra. Haja humanidade.
Os exames nacionais exigem rigor. Mas o mesmo rigor deve aplicar-se à forma como o Estado prepara as suas reformas e responde quando elas falham. Afinal, a credibilidade das instituições mede-se menos pela ausência de erros do que pela capacidade de os assumir e resolver dignamente.
O autor defende que transitámos da "sociedade disciplinar" dos séculos XIX e XX — teorizada por pensadores como Michel Foucault, baseada na coerção, no controlo imunológico e na oposição clara entre o "eu" e o "outro" (o estrangeiro) — para uma "sociedade da produção". Nesta nova matriz, a negatividade do controlo externo é substituída por um excesso de positividade. O indivíduo contemporâneo já não é coagido; é compelido a ser, voluntariamente, o "empresário de si mesmo".