Share |

E voltou o mês do orgulho

Chegou junho e, como tal, o mês do orgulho LGBT+. Aproveito este espaço para republicar um texto que me parece tão pertinente agora como antes. Este mês foi instituído como forma de promover a visibilidade da defesa da igualdade de direitos para toda e qualquer pessoa independentemente da sua orientação sexual e da sua identidade de género. Nesta altura há que saber topar o oportunismo.

Esta é uma altura do ano que serve para consciencializar e sensibilizar para a diferença e mostrar aos diferentes que existe um espaço para eles. Até porque, no fundo, acabamos por ser todos iguais. Pelo menos todos ambicionamos o mesmo: a aceitação.

Ser LGBT+ nas ilhas não é tipicamente fácil. Existem dois problemas principais: os estereótipos que se vão perpetuando e a imprevisibilidade. Por um lado, crescemos em escolas onde é normal ouvir crianças a chamar a outras de «gay» com um intuito pejorativo e, por outra, a existência de poucos exemplos de pessoas comuns abertamente LGBT+ que possam demonstrar ser possível viver a vida verdadeiramente e em segurança.

Vivemos em meios pequenos, por isso mesmo ser marginalizado é fácil. Ser olhado de lado é algo com que se pode contar, até pelo conservadorismo que ainda existe. Quer isto dizer que os Açores são homofóbicos? Não necessariamente. Só ainda não existiram pessoas LGBT+s suficientes a serem-no abertamente de forma a perceber-se a reação e a criarem-se modelos que permitam mostrar aos jovens LGBT+s que aqui podem ter um futuro e aos menos jovens LGBT+s que, finalmente, se podem sentir completos nas suas ilhas.Quero com isto afirmar que todos os LGBT+s das ilhas devem pegar num megafone e irem para as ruas? Nada disso. Cada um vive como quer. Ninguém deve sentir-se obrigado a expôr-se, mas também ninguém se deve sentir obrigado a esconder-se. O objetivo é simples: a reação a casais homossexuais ser a mesma dos casais heterossexuais, o direito à indiferença. A possibilidade de ser demonstrado afeto em público.Mas é necessário alguns darem esse passo para desbravarem caminho.

Foi com esse espírito que, no aniversário da revolta de Stonewall de há dois anos, fiz eu próprio a minha saída do armário. Nós existimos e não somos poucos. Simplesmente estamos contidos nos nossos círculos pessoais mais íntimos por não sabermos se a nossa comunidade nos aceita. Como alguém politicamente ativo sinto-me com a missão de tomar uma posição e afirmar que efetivamente existe um lugar para nós que é, justamente o lugar de qualquer outro.

Ainda existe muito por fazer, principalmente em termos de mentalidades e, por isso mesmo, têm lugar as marchas. Que se note que a agenda mediática e política não é marcada por um só assunto: é possível trabalhar sobre várias temáticas ao mesmo tempo. Não queremos ter destaque e ter mais direitos que alguém, mas antes afirmar que existimos. É muito fácil afirmar-se que não existe homofobia num local, mas se nesse local não existirem pessoas abertamente LGBT+ como se pode inferir isso? Com que base? As marchas servem para consciencializar pessoas não-LGBT+, mas têm a importante missão de dizer a pessoas LGBT+ que não estão sozinhas.

Trabalhemos para construir um mundo onde ninguém tem de afirmar a sua sexualidade, mas simplesmente vivê-la. Onde é tão normal e fácil ser LGBT+ como é ser heterossexual e cisgénero. Não estarão todos os problemas da humanidade resolvidos, mas sempre podemos riscar um. E é tão atingível essa realidade mais colorida, unida e feliz: basta todos querermos.