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Santa hipocrisia

Reparem bem: é possível eleger, democraticamente(?!), bestas fascistas (travestidos de humanos e democratas), à conta do medo paranoico que se infiltrou na maioria de nós. Um medo tão grande que nos deixa indiferentes às terríveis notícias de barcos à deriva, cheios como um ovo de homens, mulheres, crianças e bébés - que fogem da guerra, da fome e de múltiplas perseguições – à procura de um porto onde possam ancorar. Os portos fecham-se, impunemente e as consciências mudam de canal noticioso porque esta ‘cena’ da crise dos migrantes já enfada…

E, entretanto, o mar atapeta-se de cadáveres, dia após dia, ano após ano, sem que ninguém faça um gesto, tome uma medida política ou grite (grite mesmo!) a infâmia que se desenrola sob os nossos olhos. Dizem que temos muito medo das pessoas que esses cadáveres eram e daqueles/as que não sendo cadáveres (ainda) são, eventualmente, criminosos em potência, prontos/as a perpetrar atentados em série, a gerar violência em massa, a matar as mulheres e a maltratar as crianças.

E, no entanto, se pensarmos um pouco, percebemos duas coisas, clarinhas como água: por um lado, os atentados que o mundo enfrenta são planeados e gerados por pessoas que nasceram e vivem, há muito, dentro do espaço mágico dos países ditos progressistas e onde tais atentados ocorrem. Por outro, não é preciso virem muçulmanos para estes países para que as mulheres sejam mortas e as crianças mal tratadas, porque os autóctones civilizados destes mesmos países, há muito se encarregam desta tradição secular.

E acontece que os autóctones do nosso país – dito de brandos costumes – e da nossa Região – dita temente a Deus – não deixam os seus créditos em mão alheias e espancam, torturam e assassinam mulheres, unicamente por serem, exactamente, isso, mulheres, isto é, seres desprezíveis que não merecem outro tipo de tratamento. E, assim, numa estatística macabra, alcançámos, desde o início do ano da graça de 2019, a cifra de 18 mulheres assassinadas, ou seja, mais de duas por mês.

E, pronto, aí continuamos nós na ladainha do costume: há governos bonzinhos e caridosos que dizem que ficam com alguns dos migrantes que andam à deriva no mar (esquecendo que, primeiro, eles têm que aportar e sair dos barcos que os albergam) e há governos que dizem que é preciso tomar medidas ousadas e corajosas para proteger as mulheres e fazer-lhes justiça, esquecendo que já dizem isto há anos e os crimes aumentam. Resumindo: o que é preciso é mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Literalmente.

E, contudo, no que às mulheres diz respeito, sabemos bem o que falta fazer.

E, por manifesta falta de espaço, limito-me a referir uma medida que há muito tempo deveria ter sido tomada e só não o foi por puro preconceito e atavismo: comecemos por retirar do lar o agressor e criemos para eles casas-abrigo, ao invés de serem as mulheres a sair de casa, com filhos/as e a roupa que têm no corpo. Criemos casas que ‘abriguem’ os agressores, não das eventuais vinganças das mulheres, mas antes da estigmatização social, do apontar do dedo, do falar em voz baixa e desviar o olhar à sua passagem, da crítica da vizinhança, do desmerecimento da família e daquela frase fatal que deita qualquer autóctone abaixo: “Coitado, batia na mulher!”.