O que os sonhos nos dizem

Hoje faço aquilo que condeno: falo sobre aquilo que não sei. Baseio qualquer crença que se possa aqui constatar em mera especulação. No entanto, não o faço por mero exercício estético (disso muito pouco tem), faço-o para passar duas mensagens.

Outro dia uma amiga veio pedir a minha opinião sobre um sonho que teve. Fez-me lembrar um sonho que eu próprio tive e me gerou alguma confusão. Claro que um pedido dos outros gera maior ação da nossa parte que um pedido de nós próprios. Pus-me a pensar: como é que uma situação hostil de dia se reverte num diálogo pacífico no sonho?

Ao pensar sobre este tema dos sonhos, pareceu-me que a dimensão relativa é mais importante que a absoluta. Enquanto estamos acordados a viver as nossas vidas estamos a levar constantemente com estímulos e sensações. Pensamos e sentidos, sendo isto também armazenado como informação. A estas etapas chamo de absoluto. A relatividade advém de relacionarmos as informações entre si temporalmente. Isto faz sentido na medida em que enquanto dormimos podemos considerar que é a subconsciência (aquilo que está por detrás da nossa consciência e da qual temos reduzido acesso acordados) aquela que coordena os sonhos (claro que tudo isto é cientificamente discutível). A subconsciência é a derivada da consciência, tal como a aceleração é da velocidade.  

No famoso livro «Dragões de Éden» de Carl Sagan temos um percurso sobre a inteligência humana: desde a evolução do cérebro até os anos 70 até por onde o futuro passará. É muito batida a evolução do cérebro dos diversos seres a partir de um tronco comum. Quase que podíamos ver esta questão por blocos. Um conjunto de seres desenvolve o seu cérebro a ponto de ter o bloco A. Outro conjunto desenvolve o A e ainda acrescenta o bloco B e um terceiro grupo desenvolve primeiro o A, depois o B e ainda acrescenta um C. Este último grupo é dito aquele mais evoluído, não obstante, contém elementos presentes nos seres menos desenvolvidos, aquilo que acontece é «adicionar inteligência». Aquilo a que chamamos o Bloco A consiste no complexo R (esta teoria proposta por Paul MacLean). Esta base presente nos seres com cérebros é responsável por instintos de sobrevivência. Se tivesse de adivinhar, diria que estes instintos à noite se manifestam nas situações de perigo ou necessidades que muitas vezes sozinhos. Diria também que é a complicada relação destes instintos que nos são tão intrínsecos e a linguagem natural com que os nossos cérebros desenvolvidos utilizam que produzem uma disputa de dois modos de ação e resulta em sonhos sobrenaturais e fantasiosos.

O meu objetivo não é só fazer o leitor refletir sobre os seus sonhos e conhecer-se melhor. É nesta teia de palavras perceber que falámos de psicologia, biologia, neurociência, física, matemática… Não é possível compreendermos uma realidade à luz de uma única área do saber. É importantíssimo investir na investigação de especialidade, tal como em projetivos cooperativos de vários campos. É aí que vai residir o nosso futuro.

Não só me parece que para conhecermos um objeto temos de o ver sob várias áreas, como também parece que é dessa teia de conhecimentos que devemos olhar para o nosso comportamento. As leis naturais orientam-se pelo princípio da ação, mínima, do menor esforço. O objetivo é haver estabilidade. Porque não termos uma ética baseada nas leis da física, por exemplo? O desafio está em percebermos a realidade como uma união de conhecimento e percebermos como nos enquadramos nela.