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A profecia autorrealizada

Tenho muitos temas na linha para serem concretizados em artigos, mas há sempre qualquer coisa que altera os planos. Hoje culpo as conversas que ouço aqui e ali, pela mudança temática. Penso ser muito pertinente falar de um conceito importante em Psicologia: profecia autorrealizada.

Segundo este efeito, a profecia autorrealizada, o sujeito tem uma determinada crença, que pode ser falsa, sobre outra pessoa. Como ele está convencido que aquilo está certo, ele vai agir partindo desse princípio. A outra pessoa terá a sua ação condicionada pela forma como o sujeito lhe dirige, pelo que a sua resposta pode ir de encontro às expectativas geradas. Ora, neste caso, o sujeito confirma a sua crença como verdadeira, apesar de ser falsa. Confuso, certo? Na verdade, é bastante simples e um exemplo concreto ajuda. Essencialmente, a profecia autorrealizada é a nossa busca por confirmar aquilo em que acreditamos, fechando os olhos para tudo aquilo que nos contrarie.

Um exemplo interessante é pensarmos numa sala de aula dividida em dois grupos aleatoriamente constituídos: A e B. A essa turma é atribuído um professor completamente alheio. Ora, alguém com o mínimo de confiança afirma ao docente que os alunos A terão bons resultados, apesar de não apresentar qualquer justificação. Portanto, o professor não sabe nada sobre os alunos, mas tem aquela ideia mental sobre A. No final do ano averigua-se que o grupo A conseguiu melhores resultados, mas nós sabemos que não havia qualquer razão para isso, uma vez que os grupos foram aleatórios. Coincidência? Podemos não estar cientes disso, mas muitas coisas se passam na nossa cabeça e como o mundo tem muita informação, nós socorremo-nos inconscientemente de atalhos. Esta ideia da nossa crença influenciar efetivamente a realidade para confirmarmos a crença é conhecido também como efeito Pigmalião.

Não obstante, podemos abordar a profecia de uma forma mais passiva. Se eu meter na minha cabeça que o meu parceiro me anda a trair, vou tentar provar isso. A minha atenção só vai ser colocada em possíveis pistas, mesmo que forçadas. Eu posso estar completamente errado, mas o meu cérebro fabrica uma narrativa. Nós vemos aquilo que queremos ver (não necessariamente por ser aquilo que queremos, mas o que traz consistência mental). Isto tem um enorme impacto em preconceitos. Se eu me convenço que os imigrantes africanos são violentos, vou tentar prová-lo. Se surgir a notícia de um esfaqueamento por alguém dessa etnia digo «pois claro!», mas ignoro todas as notícias de eventos violentos que não envolveram esse grupo. Vai-se a ver e só cerca de 7% dos prisioneiros em Portugal são imigrantes africanos (e 15% imigrantes).

Há aqui um efeito brutal político que se espelha na discriminação e isolamento de grupos sociais, mas também na criação de climas de opinião. A profecia autorrealizada também se aplica à consideração que todos os políticos são corruptos, de que são todos igualmente maus. Estas profecias minam a nossa democracia com base na abstenção.

Preocupa-me que este efeito se aplique especialmente pela negativa, levando a que se deturpe as ações de partidos e políticos, e incentive a conversa de café do bota-abaixo. Rótulos injustificados são atirados a cuspo.

Numa dimensão pessoa, a profecia tem um impacto enorme na autoestima: "É impossível não acabarmos sendo da forma que os outros acreditam que somos.” (Gabriel García Márquez).

petergasparamaral@gmail.com