Somos todos crescidos

Tenho 20 anos, daqui a um mês passo a 21, o que sei eu? Às vezes olho para trás e fico a pensar como é que um fedelho de 14 anos se lembra de ir ter com o Secretário Regional da Educação e Cultura para expor a sua perspetiva em relação à escola e ao ensino. Será que essa criatura em início de adolescência tem algo pertinente a dizer? Fez algum sentido essa pessoa ser cabeça de lista de uma ilha à Assembleia Regional e à Câmara Municipal com 18 e 19 anos, respetivamente? Esta é a forma particular da questão: será que cada um de nós tem mesmo algo a dizer?

Bem, eu acredito que sim. Não o respondo movido por vaidade, por ter estas letras imprensas num jornal. Eu acredito que cada um de nós tem uma voz e que deve fazer-se ouvir pelos mecanismos que mais fazem sentido, de acordo com as circunstâncias. Acho que a conversa de café faz sentido, em termos gerais, tudo aquilo que gera reflexão tem potencial para ser profícuo. O que é preciso é ter argumentos minimamente assentes para defender as teses e não simplesmente disseminar teorias da conspiração ou encontrar bodes expiatórios. Agora, se temos uma opinião fundamentada (desde que não tentemos ensinar a missa ao Papa), expô-la nas conversas do dia a dia parece a coisa mais óbvia do mundo e está casada com a liberdade.

Isto leva-me para aquilo que move na escrita deste artigo: o assumir das posições. Se temos uma opinião e a estamos a colocar em cima da mesa, então devemos assumi-la. Não ficar completamente agarrado e inflexível, mas não tentar omitir aquele que se acha ser objetável. A reflexão é um percurso dialético, faz-se com duas vozes que se vão colocando perguntas na esperança de encontrar uma resposta final. Uma opinião é uma espécie de função: um mecanismo que tem uma determinada forma, tem uma determinada ação, onde colocamos algo e nos sai uma conclusão. Uma espécie de se algo, então aquilo. Colocamos factos para retirar factos. É natural termos de ajustar a máquina.

A minha experiência de vida é tão reduzida e eu consigo olhar para trás e perceber que disse e acreditei em coisas muito estúpidas. Num tempo de vida humano, a constância da mudança é ainda mais gritante. Mark Twain, pelo menos na minha cabeça, está muito ligado a esta noção de mudança de opinião. Muitas foram as pessoas ao longo do tempo que afirmaram que só os acéfalos não mudam a sua opinião. Estamos sempre à procura da verdade, resta-nos assumir uma humildade intelectual que nos permita manter uma mente aberta. Não há vergonha em mudar. Em Física Térmica aprendi que em sistemas reversíveis (que podem ser revertidos) temos mudanças infinitesimais de fases. Quer isto dizer que o sistema vai mudando de uma forma muito consistente. Pensemos nos recipientes onde fazemos gelo: se os deixarmos com gelo em cima de uma mesa, lentamente, em cada parcela vai aparecendo água e, se os voltarmos a colocar no congelador, lentamente, vai-se formando gelo. É curioso que também aprendemos que a entropia aumenta, metaforicamente falando, podemos dizer que há medida que o tempo avança aumenta o caos, a quantidade de informação. Interessante, não?

Que se note que isto tudo veio do facto de uma peça no Telejornal do dia de Natal ter dito «estrutura» ao invés de «empresa privada de defesa» sobre a operação da Edisoft na base da ESA em Santa Maria (Edisoft integra o Thales, que lucra com a guerra, e é de onde veio o atual presidente da PT Space) – talvez inconscientemente. Que se assumam os interesses em cima da mesa e se valorize a reflexão: eu apoio a ciência como um setor estratégico público, e vocês?