Os Açores são como um barco já equipado para velejar, falta apenas desligar o motor e içar as velas.
Os Açores não precisam de reinventar nada. O que os melhores lugares no mundo agora procuram: uma forma de viver mais equilibrada, mais limpa, mais próxima da natureza… aqui já existe, sempre existiu e pode ser o nosso ponto de partida. As ilhas são como uma semente que já tem tudo dentro de si: energia das profundezas da terra, sol, vento, solo fértil, mar. Não é preciso importar um modelo de sustentabilidade. É preciso, isso sim, não desperdiçar, nem cimentar, o que já cá temos.
Temos verde. Temos água. Temos vento. Temos escala. E isso, no mundo atual, é uma vantagem enorme.
Os Açores não são apenas um lugar bonito no meio do Atlântico. São, na prática, um oásis no mundo. Num tempo em que muitos territórios enfrentam escassez de água, poluição e desgaste ambiental, as nossas ilhas continuam a ter aquilo que é essencial: água em abundância, vento constante, solo fértil e uma paisagem viva.
O que falta, muitas vezes, não são recursos nem conhecimento. É vontade. Vontade de fazer diferente, de assumir um caminho próprio em vez de seguir modelos que não foram pensados para realidades como a nossa. Vontade de privilegiar o bem-estar a longo prazo em vez do conforto imediato. Porque nem sempre o que é mais fácil hoje é o que é melhor amanhã.
Há ainda uma tendência para valorizar mais o que vem de fora do que aquilo que já temos. Importa-se energia, importa-se alimentos, importam-se soluções, quando, em muitos casos, já existem alternativas locais mais sustentáveis. Falta confiança no potencial da região e, acima de tudo, falta coragem para fazer diferente, coragem para perder votos se for preciso, porque muitas vezes é só disso que se trata.
Mas há exemplos que mostram que outro caminho é possível. A ilha Graciosa é um desses casos. Ao investir na produção de energia renovável e caminhar para a autonomia energética, provou que pequenas comunidades podem ser pioneiras. Não é uma ideia teórica, está a acontecer.
E não é caso único no mundo. Costa Rica, por exemplo, decidiu há décadas apostar fortemente na proteção ambiental e nas energias renováveis. Hoje, grande parte da sua eletricidade vem de fontes limpas, e o país tornou-se uma referência global em sustentabilidade. Não por ser grande ou rico, mas por ter tido a coragem de escolher um caminho diferente. E se é possível num país que tomou decisões firmes, é possível numa pequena região como a nossa.
Os Açores têm todas as condições para se tornarem uma referência internacional em sustentabilidade. Podiam liderar na transição energética, na gestão responsável dos recursos, na produção alimentar local, na forma como se constrói e vive em harmonia com o ambiente. Podiam ser um laboratório vivo de soluções para o futuro.
E isso não significa abdicar de qualidade de vida. Pelo contrário. Significa redefinir o que é qualidade de vida. Menos dependência, mais autonomia. Menos consumo, mais equilíbrio. Menos artificial, mais real.
A questão não é se os Açores podem ser isso. A questão é se querem. Porque ser um exemplo não depende apenas do que se tem. Depende das escolhas que se fazem.