Durante décadas a ilha Terceira e a Região viveram sob a ilusão de uma economia local insuflada pela base das Lajes que empregava milhares de terceirenses e outros açorianos, o que fez aumentar o consumo e, por isso, servir de alavanca para o desenvolvimento do tecido produtivo e industrial da ilha, pois se não fosse, por exemplo, o aumento do consumo e da exigência da qualidade, por parte dos consumidores norte-americanos da base das Lajes, a modernização e industrialização do setor dos laticínios da ilha teria ocorrido muito mais tarde.
Gerou-se um pensamento dominante e conformista que se foi tornando, gradualmente, subserviente por medo do império norte-americano, ou por um sentimento de eterna gratidão, como se os norte-americanos tivessem feito um enorme favor à ilha e aos Açores, ao contratarem mão-de-obra que apesar de bem paga, para os nossos parâmetros, foi-lhes sempre barata, ou ao contratarem serviços e adquirirem produtos locais, cujos preços nos pareciam elevados, mas que para os norte-americanos eram uma pechincha.
A renda que os EUA chegaram a pagar alimentou os primeiros orçamentos da Autonomia. À época parecia ser uma fortuna, mas foi um preço baixo para que o império norte-americano tivesse o privilégio de ocupar e utilizar um ponto tão estratégico no Atlântico, em plena guerra fria e durante as duas guerras no Golfo Pérsico.
Quando deixaram de pagar a renda, o pensamento dominante julgou que os postos de trabalho, mesmo que em número inferior comparativamente ao passado, e que o consumo das famílias dos militares nos restaurantes e bares, assim como de casas para arrendar no mercado local seriam belíssimas contrapartidas. Assim, todas as pequenas vantagens começaram a servir para negar uma subserviência cada vez mais difícil de esconder. Uma subserviência que ignorou os efeitos da pulverização de DDT nas ruas da Praia da Vitória, ajudou a fazer de conta que nunca passaram ou foram armazenadas armas nucleares na ilha e que, por vezes, ainda tenta ilibar a presença militar norte-americana de qualquer responsabilidade pela contaminação de aquíferos na Praia da Vitória.
Numa atitude de desespero, os postos de trabalho - que na realidade sempre foram uma componente acessória, ou melhor, um efeito lateral positivo do Acordo Bilateral para a ilha - passaram a ser a contrapartida desejada pelo pensamento dominante para manter a sua subserviência.
Os norte-americanos reavaliaram as suas prioridades e decidiram que só precisam de Base das Lajes para manter a sua presença, e dessa forma evitar a presença militar de outra potência com interesses imperialistas.
Ultimamente, o pensamento dominante procura criar uma ilusão alternativa: a possibilidade de uma utilização civil e comercial da Base das Lajes que se sobreponha à utilização militar. No entanto, talvez por desespero, por força do hábito ou por outros superiores interesses, continua à procura de cenários que devolvam a importância estratégico-militar da Base das Lajes, ao apontar o crescente clima de tensão entre a Rússia e a Ucrânia como fator para devolver o protagonismo ao Atlântico Norte.
O pensamento dominante está nu! O domínio da utilização civil e comercial da Base das Lajes relativamente à utilização militar, num contexto de revalorização estratégica do Atlântico Norte, nunca será possível, pois num mundo em que os interesses belicistas dominam, não haverão outros interesses que falem mais alto, a não ser que se vire a página da subserviência para procurar uma alternativa, de acordo com os nossos interesses, e não consoante os interesses alheios, até mesmo dos mais bem-intencionados congressistas de origem açoriana, mas que não deixam de ser, em primeiro lugar, representantes dos interesses norte-americanos.