Árvores Não São Obstáculos

Quando os primeiros habitantes chegaram aos Açores, tiveram de cortar árvores para sobreviver. Precisavam de espaço para construir casas, abrir caminhos e criar terrenos agrícolas. Naquela altura, derrubar árvores era uma necessidade. Sem isso, não existiria a vida nas ilhas como a conhecemos hoje.

Mas hoje a situação é diferente. Atualmente, temos grandes áreas sem árvores e sabemos que as poucas que temos são essenciais para acolher vidas, melhorar a qualidade do ar e muito mais.

O Faial foi sendo construído por pessoas que cuidaram da terra. Plantaram hortênsias, araucárias, metrosíderos, laranjeiras e muitas outras árvores. Algumas davam fruta, outras serviam para madeira ou para substituir mastros de barcos. Além da utilidade, foram dando identidade à ilha.

Na semana passada foi cortada a única árvore do centro da freguesia de Castelo Branco. Era para todos nós um símbolo daquele lugar, mas não só. Soube, numa publicação importantíssima do Sr. Fernando Silveira, que tinha sido plantada em 1965 por Guilherme Silveira Fialho para dar sombra às pessoas que esperavam o autocarro. Foi um gesto pensado para o futuro. Décadas depois foi cortada.

É esta a cultura que queremos cultivar? 

Há cerca de 100 anos, um homem mandou cortar todas as árvores da Avenida Barão de Roches. Na altura houve críticas, mas o assunto acabou por ser aceite. Até hoje as árvores nunca foram repostas, e a avenida continua sem sombra e pouco acolhedora.

Precisamos de plantar mais árvores e devolver vida aos nossos espaços. Não podemos continuar a retirar natureza das freguesias e das praças, deixando apenas cimento e alcatrão. Lugares sem árvores tornam-se mais quentes, mais ventosos e menos acolhedores, tanto para as pessoas como para os animais que vivem na ilha.

Uma ilha que não protege a vida acaba por se tornar um lugar vazio.

Infelizmente durante demasiados anos arrasámos terrenos e substituímos a natureza por monoculturas. Isso aconteceu porque esse modelo foi divulgado, apoiado e incentivado. Hoje sabemos que misturar diferentes árvores e criar pequenas florestas de produção torna a natureza mais forte e mais resistente a doenças do que as monoculturas como o pasto.

A cultura de plantar, cuidar e proteger também se aprende e se cultiva.

Aquilo que os governantes, os meios de comunicação e as pessoas públicas valorizam acaba muitas vezes por se tornar cultura. Quando certos hábitos são repetidos e incentivados, passam a ser vistos como normais e importantes. Por isso, as decisões públicas e aquilo que figuras públicas fazem no dia a dia, têm muito impacto na sociedade.

A cultura açoriana também muda com o tempo. Nem tudo o que hoje chamamos “tradicional” existiu sempre. As marchas populares, por exemplo, foram criadas no continente há menos de cem anos. No Faial existem há menos de vinte anos. Mesmo assim, hoje já fazem parte da identidade de muitas pessoas.

Há pouco tempo foram atribuídos 126 mil euros à associação regional de criadores de toiros da tourada à corda, enquanto muitas associações culturais receberam menos apoio. Isto levanta uma pergunta importante: que cultura estamos a cultivar?

Está mais do que na altura de valorizarmos verdadeiramente a nossa cultura de plantar e cuidar da natureza e dos animais, em vez de continuar a tratar seres saudáveis como obstáculos descartáveis.