A austeridade não paga dívidas

Os responsáveis políticos dos partidos do designado ‘arco da governabilidade’ puderam, após 6 meses de expetativas receosas quanto ao eventual sucesso do governo anti-austeritário grego, respirar de alívio. Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e C.ª deixaram de correr o risco, perante tudo e todos, de perderem toda a razão política que suportou (e suporta) as medidas que impuseram ao país, nos últimos 4 anos.

Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e C.ª regozijaram-se com o dia que ficará na História, como o primeiro dia da desagregação europeia. O dia em que foi mais importante fazer da Grécia um exemplo para os países, sobreendividados, do sul que ousarem tentar outras alternativas que tornem as suas dívidas sustentáveis e pagáveis. O mais importante, para o diretório europeu, não é que os países tenham capacidade de pagar as suas dívidas, mas sim aumentá-las, para estarem sempre sob o seu jugo político.

A situação criada pelo Eurogrupo – Órgão sem existência legal – ultrapassou o bom-senso e tornou clara, a total ausência de democraticidade e solidariedade europeia. Perante um país com um governo que preferiu iniciar conversações para tornar a sua dívida sustentável, em vez de contrair mais empréstimos, o Eurogrupo optou por continuar a assegurar a liquidez da banca francesa e alemã que será suportada com ainda mais austeridade, de tal forma irracional que coloca em risco todos os envolvidos (incluindo os credores). A Grécia será assim «sugada até ao tutano», porque esse é o caminho, há muito programado, para subjugar as economias do sul da Europa.

Ficou provado que o embate com as instituições europeias será sempre duro, e quem o fizer terá de estar preparado com um plano alternativo ao Euro. Se a permanência no Euro implica a obediência a um pensamento único, então este Euro só interessa a quem pretende viver sob um regime totalitário político-financeiro ou para quem quiser alimentar um simulacro hipócrita de democracia.

O Governo grego teve a coragem de tentar outro caminho, acreditou na democracia e solidariedade europeia, mas acabou por claudicar e será obrigado, no seu país, a dar a cara pela receita única da austeridade, contrária ao seu próprio programa eleitoral e ao resultado de um referendo popular que havia chumbado mais um programa de austeridade como solução para a resolução da colossal dívida do país. Nesse sentido, o Eurogrupo não só venceu como humilhou, o derrotado Tsirpas e o seu governo, mas expôs, como nunca, o verdadeiro caráter desta União Europeia, vergada ao pensamento único de um diretório liderado pela Alemanha, cujo poder poderá ser disseminado por um diretório de 6 Estados membros, por proposta de Hollande que procura reconquistar para o seu país, algum protagonismo, nem que para isso tenha de assumir uma Europa a várias velocidades.

Poucas dúvidas restariam sobre o autoritarismo do Banco Central Europeu (BCE), que não responde perante qualquer órgão democraticamente eleito, e que recentemente tornou-se ainda mais claro, quando cortou o financiamento aos bancos gregos, obrigando a Grécia a implementar medidas de controlo de capitais, só porque Tsirpas decidiu que o povo grego deveria pronunciar-se sobre uma das últimas propostas do Eurogrupo. Contudo, para o poder estabelecido não é importante submeter o BCE a qualquer controlo político e democrático.

Numa das manobras para pressionar o governo grego a aceitar as condições do Eurogrupo para que contraísse mais um empréstimo, ficámos a saber que um grupo de funcionários da Comissão Europeia elaborou um documento com 200 consequências, para a Grécia, caso saísse do Euro. Segundo tal documento – aparentemente encerrado no secretismo e guardado num cofre perto do gabinete de Junker – cujo conteúdo foi transmitido oralmente a Tsirpas, o Euro é mais importante do que a UE e à livre circulação de pessoas, consagrada no Acordo de Schengen. Por outras palavras, o Estado membro que quiser libertar-se do jugo do Euro poderá ter de ficar isolado na Europa, mais isolado do que alguns países europeus que apesar de não pertencerem à UE, estão incluídos no Acordo de Schengen.

O projeto de uma UE democrática e solidária que preza a coesão social faliu, e vinga, cada vez mais, uma UE autoritária, elitista e a várias velocidades, em que uns mandam e outros obedecem. O mais preocupante é que há quem tenha gosto em obedecer, mesmo que para tal tenha de fazer sangrar o seu povo.