Desconheço o futuro da governação do país, da mesma forma como as últimas eleições não serviram para eleger um governo, mas sim deputados que compõem a Assembleia da República cuja configuração determinará um futuro governo. Não é, por isso, unicamente uma corrida para ver quem termina em primeiro. É muito mais do que isso. Assim sendo, e partindo desse facto, não aceito, e qualquer pessoa que preze a democracia também não, que se acuse os partidos políticos, que não o PSD, CDS e PS, com representação na Assembleia da República, depois das últimas eleições, de fazerem «batota» ao estarem abertos à possibilidade de viabilizarem um governo que cumpra aquelas que são consideradas, no seu entendimento, as condições mínimas para viabilizar um governo de esquerda.
Mas falemos de «batota» eleitoral. «Batota» eleitoral é quando não se cumpre aquilo que se propôs ou prometeu durante a campanha eleitoral, uma prática dos partidos que suportaram o último governo. «Batota» eleitoral é quando um governo atenta deliberadamente contra a Constituição. E «batota» eleitoral é quando a vontade da finança e os mercados servem de justificação para asfixiar a vida das pessoas e a democracia, sem que reste qualquer alternativa. Essas sim, são marcas indignas de quem só convive bem com a democracia, se esta lhe beneficia ou lhe deixa «ir ao pote».
A tomada de pose de Santana Lopes como primeiro-ministro, apesar de não ter sido eleito, depois do abandono de Durão Barroso, foi um momento insólito na nossa democracia e um exemplo de uma realidade que até então não era mais do que uma hipótese teórica. Não deixa de ser curioso, que é o mesmo Durão Barroso que dá palpites sobre a vontade do eleitorado do PS e tenta lançar o pânico social ao reavivar o «papão» do comunismo e do esquerdismo.
Parece-me razoável concluir que quem votou no PS quis contribuir para a queda de um governo suportado pelo PSD e CDS. O PS, ao longo da campanha, assumiu que não aprovaria o programa de governo do PSD e do CDS, e o BE e o PCP não excluíram a possibilidade de viabilizarem um governo do PS. Por isso, acho difícil concluir que a maior parte do eleitorado do PS pretende, neste momento, que o PS se mantenha impávido e sereno perante a possibilidade de uma governação do PSD e do CDS.
É hábito dizer-se que a qualidade de uma democracia avalia-se pela forma como as minorias são tratadas. E nesse sentido, o nosso sistema (semipresidencialista) é democrático, ao ponto de permitir a formação de governos minoritários, mas também governos constituídos por várias minorias. Razão para que o governo formado em 2011 ser tão legítimo (PSD e CDS com 50,37% e 129 deputado(a)s eleito(a)s) como um governo suportado pelo PS, BE e PCP (50,87% e 121 deputado(a)s eleito(a)).
Ao longo da última campanha eleitoral, o BE disse ao que vinha, quando, sem deixar de expor e denunciar as cedências às políticas de direitas no programa do PS, anunciou, de forma muito clara, aquelas que seriam as suas condições básicas para encetar um acordo com o PS, com vista à viabilização de um governo de esquerda. E reafirmámos que, ao contrário da sede de poder dos partidos do «arco da governação», que a prioridade é devolver pensões, salários e emprego, e nunca lugares num eventual governo.
Reafirmo que não me quero antecipar ao resultado dos encontros que o PS tem tido com o PSD/CDS, com o BE e com a CDU, mas já podemos concluir que uma distribuição de votos que não confere maiorias absolutas a um só partido contribui para a promoção da humildade democrática e para abalar a configuração dogmática do tal «arco da governação», o que poderá servir de exemplo e de experiência para um PS, que também aqui nos Açores, poderia conversar de igual para igual com os partidos à sua esquerda, nas próximas eleições regionais. Mas esta semana, Vasco Cordeiro demonstrou que o PS/Açores está mais próximo do PSD e do CDS, o que comprova o logro do oásis socialista dos Açores que dispensaria o BE, bem como o logro do voto útil no PS, nestas últimas eleições legislativas, que evitou que o BE, nos Açores, crescesse ainda mais. Espero que muito(a)s daquele(a)s que votaram no PS, nos Açores, só porque dessa forma evitariam a eleição de mais deputados pelo PSD, tenham agora acordado para a realidade de um PS/Açores que afinal é um bastião do setor mais à direita do PS.
Com esta manifestação de desagrado de Vasco Cordeiro relativamente à possibilidade de o PS reunir com BE e PCP para viabilizar um governo de esquerda, não será, de forma alguma, excessivo o meu apelo para que nas próximas eleições regionais, não insistam no erro e deixem o «voto útil» à esquerda, pois isso só beneficiará o setor mais à direita do PS.