Bem bom... podia ter sido pior...

O modelo de turismo adotado pela ilha do Pico deveria servir de referência para a Região, sendo até assumido, em teoria, pelo Governo Regional. Mas é pena que tal modelo não passe do plano das intenções nas outras ilhas.

A política para o setor do turismo do Governo Regional, plasmada nos programas de governo e nas reflexões sobre o futuro do turismo na Região,  é consensual, ao assumir, inequivocamente, a importância de se investir no turismo rural e de natureza. Porém, e em simultâneo, o mesmo Governo Regional farta-se de atribuir o estatuto de PIR (Projeto de Interesse Regional) a investimentos em hotelaria tradicional e atividades conexas (jogo, com ou sem roleta ou baralho de bisca) garantindo uma majoração nos apoios públicos, motivo para que o modelo praticado transforme o setor do turismo num dos maiores flops da Economia da Região e para assistirmos, por exemplo, à bizarria de hoteleiros de 5 estrelas reivindicarem voos low-cost.

Mas voltemos no tempo para percebermos as incongruências relativamente ao modelo de turismo que se pretende para os Açores. Estávamos em outubro de 2012, em plena campanha eleitoral para as eleições regionais, e Vasco Cordeiro, com a sua comitiva de candidatos, visitava a ilha do Pico para uma ação de campanha junto aos empresários da área do turismo, e logo num espaço de turismo rural, local propício para, mais uma vez, reafirmar que este seria o 'tipo de hotelaria que bate certo com o que se promove nos Açores'. Na ocasião, os empresários aproveitaram para expressarem as suas preocupações e reivindicarem condições para desenvolver o seu negócio. Não, não se tratava de pedir mais dinheiro para enterrarem num qualquer casino, mega-hotel, numa instância de turismo tropical ou para converter termas em SPAs só porque está na moda e fica bem, mas pretendiam antes, um outro modelo de transportes, no qual contavam com a SATA e a TAP para assegurarem um maior número de ligações diretas entre o Pico e o exterior do arquipélago.

Estes empresários consideravam que se a sua ilha consegue arrecadar um maior número de visitas de turistas comparativamente à ilha do Faial, logo não faria sentido continuar a centralizar quase todos os voos no Faial.

À época, Vasco Cordeiro lá foi dizendo que a revisão das obrigações de serviço público serviria para repensar o modelo, de modo a assegurar mais um voo semanal entre o Pico e Lisboa. E que faria por sensibilizar a TAP para melhorar o serviço para a ilha. Esta seria a recompensa atribuída a quem apoiou o modelo teórico de turismo para os Açores. Um rebuçadinho para adocicar o eleitorado, mas sem exagerar, não estivéssemos em plena campanha eleitoral.

Passados 2 anos e meio, e o Pico perdeu a ligação que tinha com a TAP e ficou com o rebuçadinho dado pelo Governo Regional. Enfim, a receita certa para que os açorianos continuem a pensar que são as obrigações de serviço público e as companhias aéreas públicas que estragam tudo, só para desejarem as virtudes auto-reguladoras de um mercado liberalizado de transportes aéreos e a conversão daquilo que é de todos nós (as companhias aéreas públicas) no negócio de alguns.

E os empresários do turismo da ilha do Pico que, em 2012, pediram outro modelo de transportes aéreos, menos centralizado no Faial, terão, agora, de facto, um modelo menos centralizado no Faial, mas mais centralizado em São Miguel, o centro da hotelaria tradicional, do casino inacabado e das termas convertidas em SPA.

Enfim, perante este cenário, o Governo Regional e o PS/Açores sempre podem declarar perante os picoenses e faialenses, em jeito de auto-justificação e de um paternalismo típico das maiorias absolutas, “que bem bom... podia ter sido piorr...”