Na semana passada, assistimos à concertação da tática do CDS/Açores para as próximas eleições legislativas. Ficámos a saber que se o CDS conseguir eleger algum deputado pelos Açores, este não estará comprometido com o CDS, sob a capa da sempre admirável independência de consciência. Temos assim, para quem quiser acreditar, um CDS/Açores descomprometido com o passado e com o futuro do CDS.
A tática está longe de ser inovadora e mimetiza a excelente forma como o CDS geriu a coligação governamental com o PSD: depois do CDS que, no governo, fez oposição ao governo, temos, agora, o CDS/Açores que, se conseguir eleger um deputado pelos Açores, fará oposição ao CDS, naquela que será mais uma «boneca» para a «matrioska» centrista ou de um casamento só para os bons momentos.
Os deputado(a)s eleito(a)s pelo círculo eleitoral dos Açores, nas eleições legislativas, dever-se-ão bater pelos interesses da Região, e devem, inclusive, ir mais além e contribuir para a defesa das prerrogativas autonómicas, ampliando-as com o intuito de conceder um maior poder vinculativo, e não apenas consultivo, àqueles que são os interesses territoriais dos Açores (e não só), mas tal dever não é, ao contrário do que nos querem fazer crer, incompatível com o interesse nacional.
A tática que segue o conselho dado, publicamente, na semana passada, a todo(a)s candidato(a)s pelo círculo eleitoral dos Açores às eleições legislativas, segundo o qual o interesse dos Açores parece excluir o interesse nacional cria um dilema, aparentemente, incontornável e insanável que cada candidato(a) terá de resolver, porém muito útil, principalmente, ao CDS/Açores.
A criação desta fronteira entre interesses nacionais e regionais é só mais uma camada na maquilhagem desta realidade criada por CDS, PSD e PS, muito útil durante o período de pré-campanha e campanha eleitoral, porque contorna a necessidade de explicar como o cumprimento do Tratado Orçamental, apoiado por PSD, CDS e PS, perpetuará a austeridade e prejudicará os Açores.
Ao CDS/Açores, coligado com o PPM, fica bem armar-se em moralista, ao defender a inscrição na Constituição de um limite ao endividamento, uma consequência direta do cumprimento de uma das metas do Tratado Orçamental, mas que nem os países do diretório europeu as conseguem cumprir. Para cumprir tais objetivos (limitação da divida e do défice), o país terá de sofrer um choque austeritário ainda maior e mergulhará, de uma vez por todas, na miséria social total.
Esta fronteira intransponível serve como uma luva ao CDS/Açores e ao PSD/Açores que se escusam a dar a cara pelas políticas que castigaram os açorianos nos últimos anos e, dessa forma, o(a)s seus candidato(a)s não são confrontados com o aumento de impostos, cortes nas pensões, nos salários e a facilitação dos despedimentos que só serviu para aumentar o desemprego. E esta é também uma lógica que dá jeito ao PS/Açores que assim, mais facilmente, durante a pré-campanha e campanha eleitoral transmite a ideia de que os Açores são um oásis na desertificação austeritária nacional.
Estarão os candidatos do CDS/Açores disponíveis, para neste momento, descasarem com a pretensa inevitabilidade de um corte de 600 milhões de euros nas pensões, anunciada pelo CDS, pela deputada, Cecília Meireles? Ou será que, por artes de magia ou contorcionismo orçamental, as pensões cortadas não afetarão pensionistas açorianos?
Estes são apenas alguns exemplos ilustrativos de como as políticas nacionais têm impacto na realidade regional, mas que estão, por enquanto, arredados das campanhas do PSD e CDS. Porque será?