Casas não podem servir para enriquecer

Como é possível que cidadãos que se manifestam por um direito fundamental acabem feridos quando procuram apenas defender o direito a uma vida digna? 37 pessoas feridas, uma manifestação pelo direito à habitação e uma intervenção policial no Porto que exige explicações. Quem deu as ordens à PSP, que critérios justificaram o uso da força e por que motivo a intervenção aconteceu depois de as câmaras de televisão terem abandonado o local? São perguntas demasiado sérias para ficarem sem resposta. Está em causa o direito à habitação, a liberdade de manifestação e a atuação das forças policiais.

Lembram-se do Monopólio? Quem compra propriedades acumula rendimentos, compra ainda mais e ganha vantagem. Na vida real, há quem consiga acumular dezenas de imóveis, enquanto outros trabalham uma vida inteira sem conseguir comprar uma casa ou pagar uma renda sem dificuldades.

A casa, que devia ser um lar, transforma-se numa peça de investimento. E quem precisa dela para viver acaba a competir com quem a compra para ganhar dinheiro.

Também precisamos de olhar para o que acontece nas redes sociais. Caixas de comentários inundadas de mensagens repetidas e de perfis de autenticidade duvidosa podem criar a impressão de que toda a gente pensa da mesma maneira e está a favor dos investidores e da atuação policial violenta. A influência digital é real, e o mundo está a transformar-se em algo que assusta, resta-nos resistir e continuar a comunicar, dizer a todos em que mundo acreditamos e que valores priorizamos.

Questionar narrativas e pensar pela nossa própria cabeça torna-se cada vez mais difícil e isso é assustador.

Carregar sobre quem quer um mundo melhor para todos, em vez de discutir as razões que o levam a protestar, é uma forma perigosa de desvalorizar a participação democrática. O que precisamos é de diálogo, responsabilidade e soluções concretas.

A habitação é um direito fundamental consagrado na Constituição. O investimento não pode valer mais do que a dignidade de quem precisa de um teto.

Porque há outras formas de fazer as coisas.

Nos Países Baixos, por exemplo, há regras para proteger as casas da compra por investidores que pretendem arrendá-las. Em Amesterdão, algumas habitações de preço acessível ou intermédio têm de ser ocupadas pelo próprio comprador durante quatro anos antes de poderem ser arrendadas. É uma forma de tentar dar mais oportunidades a quem procura uma casa para viver.

Porque não discutir medidas semelhantes em Portugal? Será que o governo está interessado em defender quem precisa de uma casa para viver ou em quem quer mais do que cinquenta casas para rentabilizar?

Queremos cidades onde os jovens possam construir o seu futuro, onde as famílias não vivam angustiadas com a renda e onde os trabalhadores possam morar perto dos seus empregos. E o progresso deve medir-se também pela possibilidade de todos viverem com dignidade. Porque querer uma vida justa não é pedir demais. É querer um mundo melhor para todos.

O Monopólio é um jogo em que alguém ganha e outros perdem. A sociedade não tem de funcionar assim.