Chocolates não constroem cidades

Se tens um filho, um neto ou um sobrinho, sabes como é fácil conquistar uma criança. Basta oferecer um chocolate, deixar jogar telemóvel mais uma hora ou dizer que não há hora de ir dormir. Rapidamente passamos a ser o seu preferido.

Mas quem quer que ela cresça saudável sabe que precisamos de regras, desafios, livros lidos em conjunto, birras, conflitos e desafios com outras crianças e não só. Nem sempre provocam sorrisos no momento (nem em nós nem nelas) mas são essas escolhas que realmente as fazem crescer.

As cidades vivem exatamente a mesma tensão.

Também é relativamente fácil conquistar cidadãos. Uma cidade pode distribuir pequenos “chocolates urbanos”: mais lugares de estacionamento, mais estradas largas, apoios financeiros diretos, eventos enormes grandiosos com nomes sonantes que resultam em fotografias bonitas. São decisões que produzem satisfação imediata, dão muitos aplausos e votos mas tal como uma criança não pode crescer saudável com açúcar, também uma cidade não se desenvolve bem alimentada apenas por gratificações rápidas.

Uma cidade que cresce com saúde precisa de investimento continuado em coisas menos espetaculares, mas muito mais transformadoras: espaços públicos com menos estacionamento e mais espaços para as pessoas, bibliotecas vivas, cultura regular, recuperação do património, oportunidades para jovens criarem, pensarem e experimentarem. Precisa de ruas onde seja agradável caminhar, de encontros que façam as pessoas conversar, aprender e imaginar futuros possíveis.

O mundo está cheio de exemplos desta escolha.

Em muitas cidades da Dinamarca, como Copenhaga, durante décadas retiraram estacionamento e espaço ao automóvel para criar ruas para pessoas, bicicletas e praças. No início houve resistência. Hoje é uma das cidades com maior qualidade de vida urbana do planeta.

Em Medellín, na Colômbia, uma cidade que durante anos foi símbolo de violência decidiu investir em bibliotecas públicas, educação e cultura em bairros periféricos. Construíram equipamentos culturais impressionantes onde antes não havia nada. Não eram festas de um dia. Eram espaços permanentes de encontro e aprendizagem.

Em Seul, na Coreia do Sul, o governo investiu durante anos na cultura, na música, no cinema e nas artes contemporâneas. O resultado não foi apenas entretenimento: criou uma economia cultural global que hoje influencia o mundo inteiro.

Educar uma criança exige pensar no que ela será daqui a vinte anos. Governar uma cidade exige exatamente a mesma visão.

Por isso vale a pena colocar a pergunta de forma honesta: o que queremos realmente na nossa ilha?

Queremos continuar a distribuir chocolates urbanos para garantir satisfação imediata?

Ou queremos construir uma cidade que cresça forte, curiosa e criativa — mesmo quando isso significa escolher caminhos que não produzem aplausos imediatos?

É uma questão de futuro coletivo.