A cidade "careca"

A transformação, a mudança e a inovação começam na nossa freguesia e na nossa cidade. No caso de Angra do Heroísmo, vivemos segundo os ditames de um conceito de 'tradição' ancorado à estagnação, em que aquilo que é sagrado e imutável se confunde com aquilo que não incomoda ou não obriga determinados munícipes a sair da sua zona de conforto.

Alguns munícipes pretendem manter a exclusividade de viver no centro histórico de Angra do Heroísmo, sem serem incomodados por eventuais novos moradores.

Há ainda aqueles que, apesar de apreciarem a calçada do centro histórico, não dispensam de circular de automóvel por todas as suas vias e abominam o silêncio ou a música que anima a cidade sem carros, nem que somente uma vez por ano.

Também temos quem, além da pretensão em entrar nas lojas do centro de Angra do Heroísmo de automóvel, ainda gostaria de o fazer em autênticas autobahns.

Enquanto isso, o poder encolhe-se e faz umas experiências, para ver se não desagrada nem a gregos, nem a troianos.

Com um centro enterrado em trânsito, com condutores furiosos com a rapidez dos fiscais do parcómetro, elites com diferentes ambições para a cidade, uma parte significativa da cidade degradada, devoluta e entregue à especulação imobiliária ou a entidades bancárias - que tomaram aquilo que já foi o início de uma espécie de ensaio de acumulação primitiva de capital, por parte de algumas 'cliques' terceirenses - parece que somente resta à autarquia fazer-se passar despercebida.

O BE, nas últimas eleições autárquicas lançou o desafio de interromper o trânsito na rua da Sé, aos sábados à tarde e domingos, assinalando, dessa forma, o início de uma transformação que devolveria Angra do Heroísmo aos terceirenses, em alternativa à ideia comum e demagógica de devolver uma centralidade à cidade, ao concelho e à ilha sem se saber bem para quem e para quê.

Também nas últimas eleições autárquicas, o BE fez propostas que procuravam promover a reabilitação urbana através de uma politica de requisição pública de prédios devolutos, à semelhança do que é prática comum em Inglaterra, e da aquisição dos antigos celeiros para os converter em espaço para estacionamento, aliviando o trânsito do centro da cidade. Passado um ano, o executivo autárquico prefere esperar pela iniciativa de quem nunca teve iniciativa para coisa alguma, pelo menos enquanto não recebem uns milhões para mandar assentar uns blocos, e o melhor que consegue fazer serão umas vedações para esconder as marcas do insucesso de umas aventuras milionárias que deram para o torto.

O centro da cidade deveria privilegiar os transportes coletivos, o(a)s ciclistas e os peões, em detrimento dos automóveis particulares. No entanto, as prioridades continuam invertidas. O automóvel continua a ser o meio privilegiado, de tal forma, que até estacionam, por vezes, na paragem de autocarros na Praça Velha como se de algo normal se tratasse. E na rua da Guarita, o culpado pelo seu entupimento é, mais uma vez, o autocarro que é acusado de fazer, pasme-se, paragens! Enquanto se fecham os olhos às autênticas filas de automóveis que estacionam e até param em segunda fila.

Finalmente, nas últimas eleições autárquicas, o BE continuou a denunciar o corte sistemático de árvores na cidade e tornámos a reivindicar um plano de arborização. O candidato do PS e agora eleito presidente da autarquia até nos deu razão, mas passado um ano a cidade continua careca, quiçá na vã esperança de que assim terá mais encanto.