A cidade que já tem aquilo que o mundo procura

Há uns anos, dizia-se que viver numa ilha era viver longe. Que estávamos afastados do progresso, das oportunidades, do mundo. Hoje, talvez seja precisamente o contrário.

Enquanto tantas cidades gastam milhões para plantar árvores onde antes fizeram parques de estacionamento, para recuperar ribeiras que canalizaram em betão ou para devolver às pessoas um contacto com a natureza que lhes foi roubado, nós acordamos todos os dias com isso mesmo à nossa porta.

Habituámo-nos a sair de casa e ver o Pico do outro lado do canal, como se fosse normal viver de frente para o maior vulcão do arquipélago.

Habituámo-nos a entrar num barco e, poucos minutos depois, estarmos perante baleias, cachalotes e golfinhos no seu habitat natural, sem viagens intermináveis nem parques temáticos. Natureza verdadeira. Livre.

Habituámo-nos a subir a Ribeira da Conceição até uma cascata. A caminhar no Monte Queimado, rodeados de verde e de silêncio. A ter o Parque Natural do Monte da Guia praticamente colado à cidade.

Olhem para as pessoas que correm ao final da tarde. Para quem caminha antes do trabalho. Para os grupos que treinam ao ar livre. Para quem pedala, para quem faz exercício junto ao mar, para quem simplesmente escolhe caminhar porque caminhar aqui sabe bem. Não é apenas desporto. É qualidade de vida. É saúde pública.

A ciência confirma aquilo que sentimos intuitivamente: viver perto da natureza faz-nos melhor. Reduz o stress, melhora a saúde mental, incentiva a atividade física, aproxima as pessoas e torna as cidades mais felizes. Na Horta, isso já acontece.

No verão, há mergulhos ao luar. Há conversas que se prolongam depois do pôr do sol. Há crianças que crescem com os pés na areia e adultos que, por momentos, voltam a sentir-se crianças. 

Todos os dias chegam também à Horta pessoas em veleiros que deram a volta ao mundo movidos apenas pela força do vento. Procuram abrigo, mas encontram muito mais do que um porto. Encontram uma cidade que ainda consegue viver em equilíbrio com a natureza. E isso vale ouro. A pergunta que devemos fazer não é como podemos parecer-nos com outras cidades. É exatamente a contrária. Como podemos pegar em todas estas qualidades e espalhá-las ainda mais?

Como podemos fazer com que existam mais percursos pedonais, mais trilhos acessíveis, mais espaços para correr, caminhar, andar de bicicleta, brincar e simplesmente estar?

Como podemos continuar a crescer sem perder aquilo que nos faz diferentes?

Porque a tentação de copiar modelos de desenvolvimento que hoje tantos procuram corrigir será sempre grande. Mas nós temos a oportunidade rara de não repetir esses erros. A verdadeira modernidade da Horta não está nos edifícios mais altos nem nas estradas mais largas. Está na capacidade de perceber que a natureza não é um obstáculo ao desenvolvimento. É o próprio desenvolvimento.

Para que, daqui a cinquenta anos, quem caminhar pela Ribeira da Conceição, subir ao Monte Queimado, mergulhar na praia do Porto Pim ou avistar um cachalote ao largo da costa possa sentir exatamente o mesmo que nós sentimos hoje.

Que há lugares onde ainda vale a pena viver.

E a Horta é um deles.