Sobre o Rendimento Social de Inserção, muito se fala e estigmatiza. Na sua generalidade, a necessidade deste compreende-se como carência económica, contudo, muitas vezes, traduz-se também numa carência afetiva - a falta de supervisão, de incentivo, preocupação, carinho e compreensão na infância. Para alguns dos beneficiários do RSI, são estas carências tão graves quanto as económicas e produzem consequências trágicas à sua capacidade futura de desenvolvimento pessoal, tornando-se por vezes numa bola de neve e karma familiar.
São muitas vezes vítimas, às mãos de outrem ou da sociedade. Da vida, são sempre vítimas da precariedade, do abandono, da falta de emprego, escolaridade e qualificações que tornem a sua presença no mercado de trabalho mais competitiva. Também de forma grave, são vítimas do estigma da pobreza, do policiar das suas ações e decisões, usando a sociedade a métrica do “desnecessário vs necessário” para fazer juízos de valor. Todos temos direito a ter um smartphone, uma televisão, acesso à internet, uma blusa mais colorida, comer mais que enlatados, entre outros elementos fundamentais para o desenvolvimento e demarcação da nossa individualidade e presença na sociedade.
As pessoas têm o direito de sentir que pertencem, porque pertencem!
Fechar os olhos a tudo isto porque três ou quatro não querem trabalhar é um crime. Aliás, a maioria dos beneficiários do RSI trabalham e alguns são até menores que, compreensivelmente, não o podem fazer. Usar uma minoria étnica ou regiões insulares como bode expiatório é igualmente um crime, principalmente quando as estatísticas nos dizem precisamente o contrário. Com 86 euros por mês (em média, nos Açores) ninguém faz fortuna.
Neste caso, o erro de muitas análises encontra-se na falta de sensibilidade que os números e os seus intérpretes expressam, isto é, da noção de que estes representam pessoas, mas que não são apenas pessoas, são vidas, sendo a sua interpretação necessariamente mais complexa.
Frequentemente, são esmiuçadas as estatísticas e debatidos os impactos económicos do RSI, mas é raro falar-se da profundidade das várias histórias de vida dos seus beneficiários. Desta forma, falta-nos uma ciência que também deve ser usada na leitura destes números - a ciência da empatia.