Congresso de silêncios e mentiras

 

Assisti, com o respeito democrático que se impõe, ao encerramento do XIX Congresso Regional do PSD/Açores. Os dois principais discursos desta ocasião - Pedro Passos Coelho e Berta Cabral - suscitam-me alguns breves comentários que não posso, nem quero, deixar de fazer.

Comecemos, então, pelo do Primeiro-Ministro. Na minha opinião, cometeu demasiados lapsos (para utilizar uma expressão que lhe é cara). Disse que o governo da troika fala verdade aos/às portugueses/as. Mentira. Basta pensarmos na infindável saga do corte dos subsídios de férias e de Natal, negado na sua campanha eleitoral, executado na sua governação e com devolução adiada para o ano de são nunca à tarde.

Disse que o governo da troika fala com transparência. Mentira. Basta pensarmos no congelamento dos pedidos de reformas, feito pela calada da noite e na mais condenável clandestinidade.

Disse que o PSD é o partido da Autonomia. Mentira. A Autonomia é uma das mais excelentes conquistas da democracia pós-25 de Abril e são os/as Açorianos que a constroem e confirmam, diariamente.

Disse que os custos dos transportes aéreos, nos Açores, eram um problema que urge resolver. Verdade. Pena é que, simultaneamente, tenha também afirmado não saber como o fazer…

Seguidamente, Berta Cabral começa por dizer que o governo da troika é patriótico e autonomista(?) mas acaba a jurar que fará, nos Açores, exactamente o contrário daquilo que o seu partido (apoiado pelo CDS), está a fazer, na República: na saúde, na educação, na acção social, nos transportes, na economia, no emprego, na fixação de jovens, enfim, em tudo o que mexe.

Com o PSD, os amanhãs cantarão! Como se não houvesse ‘hoje’, como se o povo açoriano estivesse incólume às políticas de austeridade que, mais do que impor sacrifícios desiguais e injustos, negam e roubam vidas, por todo o país. Umas vezes, com a abstenção violenta do PS; outras, com a sua indecente cumplicidade e concordância. É sempre bom lembrá-lo, para memória futura.

Até pode ter sido um grande congresso. Mas tantas incoerências, mentiras e promessas provam que não foi, seguramente, um congresso de confiança. É caso para dizer que foi um congresso tipo: muita párra e pouca uva!

Ah! E, já agora, até teve direito a uma cereja por cima do bolo que começou com saudações respeitosas aos/às jornalistas presentes e acabou, precisamente, com uma jornalista a ser desviada, à bruta e com direito a marcas visíveis nos braços, pelos seguranças do Primeiro-Ministro que não queriam que o dito fosse incomodado.

Disseram 'democracia', apreço pela 'pluralidade' e ' liberdade de expressão'? Disseram. Mas, afinal, queriam dizer outra coisa.