Crónica de uma cidade retro-futurista – 1.ª parte

Angra do Heroísmo, 31 de dezembro de 2035

Às seis da manhã, do último dia do ano, numa segunda-feira, amontoam-se, como é prática diária já há muito estabelecida, vários homens e mulheres na antiga praça do mercado ‘Duque de Bragança’, onde agora funciona o mercado da «jorna», com a esperança de que algum patrão lhes escolha para prestarem uns serviços de manutenção às máquinas robóticas que requalificam os edifícios do pós-sismo de 1980 e, um pouco mais tarde, fruto do boom dos fundos europeus, os edifícios que surgiram nos finais da década de 90 do século passado e início deste século, mas cuja falta de manutenção resultou na sua acelerada degradação. Outros escolhidos poderão cair nas boas graças de algum agente das grandes multinacionais chinesas de prospeção de minérios marinhos para trabalharem no alto-mar, não ao dia, mas ao mês, com alimentação, a bordo, incluída.

Pese embora o raiar do dia, uma neblina persiste em assombrar a cidade, afoga os angrenses mais idosos e dificulta a respiração a quem acorre aos mercados da «jorna». Uma neblina com origem no trânsito intenso, de automóveis muito antigos e convertidos à utilização de gasóleo e gasolina de qualidade duvidosa, mas sempre mais barato do que comprar e abastecer um automóvel a hidrogénio.

Custa a crer que esta cidade teve, em tempos idos, o estatuto de Património Mundial. Um estatuto perdido desde que se construíram vários parques de estacionamento subterrâneos no seu centro histórico, ao ponto da cidade ter ficado conhecida como o «queijo suíço dos Açores», e desde que se alargou e asfaltou a sua artéria principal, num rápido processo de descaracterização que culminou na construção de um centro comercial, na antiga Praça Velha, decalcado de um outro centro comercial, construído em São Miguel, em finais da década de 90 do século passado, e muito invejado pelos angrenses e terceirenses.

Mais para o final da manhã, numa zona ainda mais degradada da cidade, onde subsistem ainda os antigos celeiros, faz-se sentir a chegada da neblina vinda da incineradora da ilha, em funcionamento desde o longínquo ano de 2015, que por falta de manutenção e quebras de funcionamento, começou a libertar uma fumaça espessa e negra que irrita a garganta e os olhos. É nesta zona dos antigos celeiros que se concentram, na vã esperança de serem escolhidos por alguns patrões, outros homens e mulheres com algumas qualificações, muitos destes homens e muitas mulheres com idade avançada são ainda de uma geração em que era possível aceder a estudos superiores num sistema público gratuito.

Talvez seja necessário contratar algum arquiteto ou engenheiro para programar os robots da construção ou para inserir no software de desenho, as instruções que darão lugar aos projetos de arquitetura.

Alguns médicos e enfermeiros amontoam-se à espera que alguém os contrate ao ‘diagnóstico’ ou ao ‘tratamento’. Há, inclusive, enfermeiros que recebem consoante a dimensão ou o número de feridas que tratam.

Os professores aguardam, em fila, para serem recrutados, à semana, ao mês ou ao ano, para as poucas escolas da ilha, todas elas privadas.

Muitos dizem que a ilha definhou e que continua a definhar, porque todo o investimento foi direcionado para São Miguel, e que a Terceira para se desenvolver tem de arranjar um mercado da «jorna» ainda maior do que o megamercado da «jorna» do Campo de São Francisco, em Ponta Delgada.

(continua…)